Afrikkanitha presta tributo a Lilly Tchiumba

A cantora contou que foi a partir dessa experiência que se apaixonou definitivamente pela obra de Lilly Tchiumba e começou a alimentar o desejo de levar este espectáculo às salas de Luanda e, mais tarde, a outros palcos do país e do estrangeiro.
Ao aprofundar o conhecimento sobre a artista, Afrikkanitha afirmou ter ficado impressionada com a verdade e a intensidade com que Lilly Tchiumba interpretava as suas canções. Admirou igualmente a coragem com que afirmava a cultura e a identidade angolanas num período em que estas tinham reduzido espaço de expressão pública. Outro aspecto que a marcou foi o facto de Lilly Tchiumba se ter afirmado num universo musical dominado por homens, numa época em que poucas mulheres conseguiam construir uma carreira artística. A preparação do concerto prolongou-se por cerca de três anos. Segundo explicou, a realização de um espectáculo desta dimensão exige recursos financeiros elevados e torna-se praticamente impossível sem o apoio de patrocinadores. Depois de uma tentativa falhada em 2025, o projecto tornou-se viável este ano graças ao apoio da Sonangol, embora a artista admita continuar à procura de mais parceiros para assegurar todos os custos da produção. Afrikkanitha revelou que encara este concerto como um acto de preservação do património musical angolano. Desde 2020 dedica-se ao estudo do Cancioneiro Angolano e considera que essa é a verdadeira essência da música nacional. Por essa razão, procurou manter os arranjos o mais próximo possível dos originais, afastando a ideia de uma simples adaptação em linguagem de jazz. Reconhece que a sua voz transporta naturalmente influências do jazz, género que constitui a base da sua formação musical, mas faz questão de esclarecer que nunca pretendeu descaracterizar a obra de Lilly Tchiumba. O objectivo, explicou, foi respeitar a identidade das canções e apresentá-las ao público com a autenticidade que sempre as distinguiu. Apenas num futuro projecto admite criar versões assumidamente jazzísticas de temas da música angolana. A cantora revelou, igualmente, a intenção de transformar este espectáculo num disco. Na sua perspectiva, a geração actual tem a responsabilidade de receber o legado dos grandes criadores da música angolana, preservá-lo e transmiti-lo às gerações futuras. Eternizar estas obras é, para si, um dever cultural. A trabalhar com uma banda constituída maioritariamente por jovens músicos, alguns nascidos depois da morte de Lilly Tchiumba, em 1989, Afrikkanitha contou que muitos ficaram surpreendidos com a modernidade da sua obra. Destacou particularmente o tema “Nzambi”, cuja sonoridade, na sua opinião, revela uma artista muito à frente do seu tempo e ganhou uma nova dimensão interpretativa sem perder a sua essência. Entre as canções que mais a emocionaram durante os ensaios, apontou “Muabié dya Muxima”, uma balada de grande beleza e nostalgia que lhe faz recordar Billie Holiday, uma das suas maiores referências. Questionada sobre a importância de revisitar os clássicos, Afrikkanitha concordou com a ideia de que estas iniciativas ajudam a manter viva a memória da música angolana. Defendeu que, se ninguém voltar a interpretar estas obras, corre-se o risco de perder uma parte importante da história cultural do país. Preservar a música, afirmou, é também preservar a identidade de um povo. Na sua opinião, todos os grandes compositores e intérpretes da música popular angolana merecem ser revisitados. Considera que artistas como Sofia Rosa, Urbano de Castro e muitos outros construíram uma linguagem própria, marcada pela diversidade e autenticidade, características que, lamenta, nem sempre se encontram na produção musical contemporânea. Apesar de confessar uma profunda admiração por muitos dos grandes nomes da música angolana, prefere não revelar quem poderá ser o próximo homenageado. Diz acreditar que será a própria música a indicar-lhe, no momento certo, o caminho a seguir. Com este concerto, Afrikkanitha pretende prestar tributo a Lilly Tchiumba, mas também contribuir para que o legado dos grandes criadores da música popular angolana permaneça vivo na memória colectiva e continue a inspirar as novas gerações.


