O artista plástico cabo-verdiano Amadeo Carvalho estreia-se em Paris, França, com uma exposição individual dedicada à identidade, à memória e à experiência diaspórica, no âmbito da feira internacional de arte contemporânea AKAA — Also Known As Africa, que decorre de 23 a 25 de Outubro, no espaço Carreau du Temple, na capital francesa.
Intitulada “Fragments d’identité – Circulations lusophones, géographies sensibles”, a exposição reúne obras da série “Retratos da Ausência” e resulta de um convite da plataforma curatorial Casa Vicência, fundada pela cabo-verdiana Émilie Silva, responsável pela curadoria da mostra.
Em declarações à agência Lusa, Amadeo Carvalho considerou a participação na feira uma oportunidade importante para apresentar o seu trabalho de forma concentrada, alcançar novos públicos e aprofundar o diálogo entre a criação artística, a identidade e a memória.
Conhecido como o “trabalhador de rostos”, o artista explicou que as suas obras exploram a memória, a identidade e a presença, recorrendo a diferentes materiais e texturas para conferir profundidade aos retratos.
Um dos elementos distintivos da exposição é a utilização de pigmentos vulcânicos provenientes das ilhas cabo-verdianas do Fogo, Santiago e São Vicente. Os materiais, recolhidos pelo próprio artista, estabelecem uma ligação entre a geologia do arquipélago, as suas origens familiares e a construção da identidade.
“Os rostos vêm com camadas e matérias onde eu utilizo pigmentos do vulcão da Ilha do Fogo, porque é de onde vêm os meus ancestrais, onde tem memórias de família que eu não conheço”, afirmou.
Radicado em Londres, no Reino Unido, Amadeo Carvalho considera que a distância em relação ao território de origem permite uma nova perspectiva sobre as raízes e a experiência de pertença. Para o artista, o processo criativo também representa uma forma de lidar com experiências pessoais e marcas emocionais.
“Esses pigmentos ajudam-me a criar uma ligação entre o território, o corpo, aquilo que permanece entre nós”, salientou, acrescentando que as obras reflectem igualmente as vivências associadas à emigração, incluindo a saudade e os processos de transformação pessoal.
Na sua perspectiva, a experiência migratória não se resume à separação dos familiares e dos lugares de origem, podendo também contribuir para a reconstrução individual. “Ela não só nos deixa com saudades dos nossos entes queridos, mas também nos cura”, destacou.
As residências artísticas realizadas em África, nas Américas e na Europa constituem outra influência relevante na trajectória do artista, que associa a mobilidade à renovação das ideias e ao desenvolvimento da sua linguagem visual.
“Nós, cabo-verdianos, nascemos em trânsito quase. Somos um povo que, se estiver muito quieto, começa a ficar louco. Eu também, como artista, tenho de estar sempre em trânsito, sempre em movimento”, afirmou.
Apesar de reconhecer a influência das suas raízes cabo-verdianas na produção artística, Amadeo Carvalho rejeita classificações que, no seu entender, possam limitar a leitura internacional da sua obra.
“Não gosto de ser considerado apenas um artista africano, chamem-me só um artista. Esse rótulo às vezes põe-nos numa ‘box’ em que eu não quero estar, porque a arte é muito mais do que isso”, declarou, manifestando a ambição de ver as suas obras integradas em museus, galerias e espaços históricos de referência internacional.
A relação directa com o público constitui igualmente uma dimensão central da exposição. O artista procura que os visitantes descubram diferentes significados à medida que se aproximam das telas, observando as texturas, as camadas e os pormenores que não são imediatamente visíveis à distância.
“De longe vês uma pintura, mas quando chegas perto da obra consegues ver as texturas, as camadas. Essas camadas são as nossas camadas que a gente está a enfrentar no dia-a-dia. Às vezes tiramos camadas para perceber a camada do outro”, concluiu.
Com esta estreia na AKAA, Amadeo Carvalho leva ao circuito internacional de arte contemporânea uma abordagem que cruza referências geográficas, memórias familiares e experiências da diáspora, colocando a identidade cabo-verdiana em diálogo com questões universais de pertença, ausência e transformação.




