Angola: Pais criticam corte na verba da merenda escolar

Pais e professores em Angola criticam o corte na verba da merenda escolar prometida pelo Presidente João Lourenço. Para muitas crianças, esta refeição é a única do dia. O orçamento segue para debate no Parlamento.
O Governo angolano prevê reduzir o orçamento destinado à merenda escolar em 2026, contrariando a promessa feita pelo Presidente João Lourenço em abril. A decisão está a gerar indignação entre pais e encarregados de educação, que alertam para consequências graves na educação das crianças.
Em Menongue, os cidadãos ouvidos pela DW não poupam críticas: "Reduzir o orçamento previsto para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) não é falta de dinheiro, é falta de vergonha política", afirmam.
Promessa de Lourenço fica pela metade
Em abril, João Lourenço anunciou um investimento de 450 mil milhões de kwanzas (cerca de 425 milhões de euros) para garantir refeições diárias nas escolas. Mas a proposta de orçamento para 2026 traz uma surpresa: menos de 239 mil milhões de kwanzas, pouco mais de metade do valor prometido.
Para muitos alunos, a merenda escolar é a única refeição do dia. "Educação sem comida é impossível", lamenta o encarregado de educação Celestino Adriano, ouvido pela DW.
"Quando esta refeição desaparece, desaparece também a vontade de aprender e de ir à escola. Tem servido de incentivo para reter as crianças na escola", afirmou ainda Adriano.
Impacto na educação
Segundo a UNICEF, uma em cada três crianças em Angola sofre de desnutrição crónica. Dados de 2021 indicavam que 40% das desistências escolares na província do Cunene estavam ligadas à fome.
O professor Francisco Tchombe teme que o corte agrave a situação.
"Ao fazer isso, estariam a mutilar a própria educação das crianças. A merenda escolar tem estado a resgatar crianças que estavam a deixar as escolas para se dedicarem à agricultura", diz.
O Novo Jornal aponta falta de fundos como motivo para a redução. Em concreto, não se sabe qual será o impacto da redução do valor previsto para a merenda escolar, no próximo ano.
Este ano, o Governo desembolsou 50 mil milhões de kwanzas (cerca de 47 milhões de euros) para o PNAE, segundo o Polígrafo África.
Contactado pela DW, o Sindicato Nacional dos Professores (SINPROF) no Cuando Cubango não se pronunciou de imediato sobre o assunto.
Debate no Parlamento
O orçamento segue agora para discussão parlamentar. Pais e professores esperam que os deputados revertam a proposta. Para Celestino Adriano, tudo se resume a prioridades.
"Celebramos a paz, mas que paz é esta que não garante o pão do aluno? O problema não é falta de recursos, é falta de vergonha política. Ainda há tempo para corrigir isso.”
Adriano questiona: Para quê diversificar a economia e atrair investimento estrangeiro, se não se investe no futuro do país, as crianças?
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