O Cemitério dos Nobres, no município de Liambo, em Cabinda, continua a guardar uma parte importante da memória histórica, cultural e ancestral da província, em mais de um século depois.
Nas campas, permanecem os nomes de personalidades que marcaram diferentes períodos da História local e ajudaram a definir as estruturas tradicionais e sociais da região.
Mais do que um espaço de repouso, o antigo Campo Santo representa, para as comunidades locais, um lugar de encontro entre o passado e o presente, onde a memória dos ancestrais permanece ligada às tradições e à identidade cultural de Cabinda.
Entre as figuras sepultadas no local, destaca-se Dom Manuel José Puna, conhecido como Barão de Cabinda, personalidade de relevo nas relações entre a região e o Império Português no século XIX. A sua presença no cemitério confere ao espaço particular importância histórica, por estar associada a um período marcante da trajectória política e social de Cabinda.
No mesmo Campo Santo encontram-se também os restos mortais de Frederico de Souza Puna, conhecido por Ngaio Nfuca, apontado como primeiro regedor de Cabinda, que exerceu o poder tradicional entre 1886 e 1910, bem como de João Espanhol, que exerceu a autoridade tradicional até 1974.
A presença destas antigas autoridades transforma o Cemitério dos Nobres num testemunho material da História da organização tradicional de Cabinda e das diferentes gerações que exerceram influência na vida das comunidades.
O valor do espaço, porém, não se limita aos nomes sepultados. O cemitério representa também uma ligação simbólica com os antepassados, num contexto em que a preservação dos lugares de memória assume importância na transmissão de valores, costumes, tradições e conhecimentos às novas gerações.
Valor histórico ameaçado
Apesar do seu valor histórico e cultural, o Cemitério dos Nobres encontra-se actualmente num estado de abandono que preocupa as autoridades tradicionais locais.
Em declarações ao Jornal de Angola, o regedor do Limbo, Domingos Bete, de 62 anos, considerou que as condições em que se encontra o espaço não dignificam a cultura nem a memória histórica da província.
Para a autoridade tradicional, a preservação do cemitério deve ser encarada como uma responsabilidade colectiva, tendo em conta o património que o local representa para as actuais e futuras gerações.
“O Cemitério dos Nobres é um monumento histórico que precisa de ser preservado e conservado, para que os turistas e as gerações vindouras possam visitar o local e tomar contacto com a História da região”, afirmou.
Na mesma perspectiva, o soba José Brás, de 58 anos, considera que o legado histórico e ancestral de Cabinda constitui um património de valor incomensurável que deve ser protegido e transmitido às gerações vindouras.
“O Cemitério dos Nobres e outros bens históricos são patrimónios culturais deixados pelos nossos ancestrais. Precisamos todos de continuar a preservar e conservar este legado, para que as gerações vindouras possam conhecer a nossa História e a nossa herança ancestral”, realçou.
A preocupação das autoridades tradicionais está igualmente relacionada com a necessidade de aproximar os jovens do património histórico e cultural da província, num período em que os efeitos da modernidade vão alterando a relação das novas gerações com os espaços e referências do passado.
Cultura quer valorizar património da região
O secretário provincial da Cultura, Guilherme Macaia, afirmou que as autoridades governativas da província estão a trabalhar na implementação de acções destinadas a identificar e preservar monumentos e sítios, com vista à contínua valorização do património histórico e cultural de Cabinda.
Segundo o responsável, a dinâmica da modernidade tem contribuído para que parte do património histórico-cultural da província perca o seu real valor e importância no seio da sociedade, sobretudo entre os jovens.
O Cemitério dos Nobres, acrescentou, integra o conjunto de espaços que merecem atenção no âmbito das acções de valorização do património.
O Governo da Província, garantiu, está a trabalhar para inverter o actual quadro e reforçar a sua preservação.



