A falta de espaços adequados está a tornar cada vez mais difícil a sustentabilidade das companhias de teatro no país, afirmou, segunda-feira, em Luanda, o actor da companhia de teatro Horizonte Njinga Mbande, David Enoque.
Em declarações ao Jornal de Angola, o premiado actor lamentou que a situação tem obrigado os grupos a encontrar alternativas para continuar em actividade, uma realidade que contrasta com períodos anteriores, que recorda que havia melhores condições para os artistas, sobretudo pela oferta de um maior número de espaços para apresentações.
Actualmente, disse, a realidade é diferente por haver poucas salas disponíveis, facto que leva os grupos a recorrerem, muitas vezes, a espaços de entidades privadas. Nessas situações, continuou, as negociações são quase sempre mais favoráveis aos proprietários, o que aumenta a pressão sobre as companhias.
“Os artistas, incluindo os da nossa companhia, vão fazendo um esforço para não pararem de trabalhar e buscam alternativas para suportar a carga. Motivo pelo qual torna-se cada vez mais difícil ver artistas a viver do teatro. A maior parte continua por amor à camisola”, observou.
No caso particular do Horizonte Njinga Mbande, David Enoque explicou que a saída da principal sala de espectáculos da companhia, localizada na Escola Njinga Mbande, actualmente em fase de reabilitação, agravou as dificuldades. Durante anos, o espaço facilitou a actividade da companhia, que agora se vê obrigada a procurar alternativas para apresentar os seus espectáculos.
Sem aquele espaço, sublinhou, o Horizonte Njinga Mbande tem recorrido a apresentações periódicas em locais como o ZAP Cinemas do Morro Bento e o Bar Bar, no Miramar, embora este último, reconheceu, não tenha sido concebido especificamente para acolher espectáculos de teatro.
Apesar das dificuldades, David Enoque manifestou que a experiência acumulada ao longo de quatro décadas tem permitido à companhia encontrar formas de adaptação. David Enoque explicou que o Horizonte Njinga Mbande já atravessou diferentes períodos de crise e tem utilizado essa experiência para criar alternativas de sobrevivência e continuar a incentivar os jovens interessados pelas artes.
“Temos aplicado a experiência adquirida ao longo dos 40 anos para ter alternativas e formas de sobrevivência, como, por exemplo, depender dos seus próprios esforços, para aliviar um pouco mais a carga”, salientou.
Necessidade de subvenção
Para David Enoque, a capacidade de adaptação dos artistas não deve substituir a responsabilidade das instituições públicas no apoio às artes. O artista considerou que a actividade artística, por ser uma profissão de risco, necessita de mecanismos de suporte que permitam às companhias planificar as suas produções com maior estabilidade.
O responsável defendeu, por isso, a criação de subvenções, sobretudo, destinadas a companhias com trajectória consolidada, que resistem durante décadas em prol da sustentabilidade do teatro nacional.
Segundo David Enoque, as companhias acabam muitas vezes por depender dos próprios esforços para financiar as suas actividades, uma realidade que considera insustentável para organizações culturais.
O grupo Horizonte Njinga Mbande foi fundado a 8 de Outubro de 1986, por Adelino dos Santos Caracol e Izequiel Issequiel, em Luanda. É dos mais aclamados projectos culturais do país e tem lançado muitos actores e outros profissionais das artes cénicas.
O grupo já recebeu vários prémios em Angola, entre os quais o Prémio Nacional de Cultura e Artes (2007), na modalidade de Teatro, a maior destinação do Estado no domínio da criação artística e investigação cultural.



