Os docentes José Luís Mendonça e Abreu Paxe defenderam, ontem, em Luanda, o estudo da oralidade para a preservação da sabedoria dos ancestrais, sendo que os conhecimentos e os saberes não “repousam” só nos livros.
As declarações foram prestadas ao longo da II Conferência Nacional sobre Literatura Oral Angolana, promovida pela Associação Mwelo Weto, na Biblioteca Nacional, na capital do país.
O encontro, que decorre até hoje, sob o lema “Vozes ancestrais, narrativas contemporâneas”, propõe um diálogo sobre a tradição, contemporaneidade, no sentido de valorizar a palavra, memória dos saberes ancestrais e as múltiplas manifestações da oralidade angolana.
José Luís Mendonça, na sua comunicação sobre “A premência da oralidade no fomento da leitura”, fez menção de três elementos cruciais para o aumento da leitura, nomeadamente: histórias, provérbios e adivinhas.
Segundo o prelector, estes elementos são importantes para o enriquecimento de vários aspectos da cultura geral e formam uma componente fundamental da cidadania africana, assim como ajudam a ganhar o gosto pela leitura.
O docente referiu que a oralitura deve ser transmitida de forma oral em diferentes gerações, pois a literatura só existe por meio dos leitores que lhe permite funcionar, razão pela qual é necessário que haja leitores.
“Acredito que deve existir uma revolução no ensino, porque, sem leitores, os escritores padecem”, disse.
Por sua vez, Abreu Paxe descreveu a oralitura como um conceito que valoriza a memória ancestral, voz, gesto e o “corpo” como suporte, criação e transmissão de conhecimentos.
O também docente sublinhou que os provérbios, histórias, adivinhas e contos se cruzam como diferentes movimentos na ordem das coisas, por exemplo, a música “Maria Rita”, do grupo N’gola Ritmos, cujo elemento substancial é uma crónica, sendo que a mesma é conhecida como um género literário.
Abreu Paxe disse que, além de textos, a oralitura transmite igualmente saberes ancestrais e culturais, por meio da performance corporal, da voz, da musicalidade e da gestualidade.
Segundo o professor, o conhecimento e o saber não “repousam” só nos livros, mas, sim, em múltiplos saberes, contudo, a palavra literatura é composto por dois termos que são “litera” e “tura”, este último termo significa movimento ou circulação, ao passo que “litera” vem ser letra, marca e voz.
“A palavra literatura traz consigo o cruzamento entre aquilo que se ouve, assim como o que se pode falar, ou seja, nela encontramos a voz e a escrita”, sublinhou.
Espaço permanente
Na ocasião, a presidente da Associação Mwelo Weto, Domingas Monte, explicou que a iniciativa serve para criar um espaço permanente para pensar, estudar e divulgar a literatura angolana.
“Com a realização desta actividade, damos mais um passo na concretização do nosso propósito que é de divulgar cada vez mais a nossa literatura. Os contos, histórias, provérbios e outras manifestações da oralidade não pertencem apenas ao passado e devem ser conhecidos”, concluiu.
Domingas Monte realçou que preservar a literatura, jamais significa guardar, mas é preciso investigar, ensinar e transmitir este conhecimento, assim como é necessário compreender como a ancestralidade pode dialogar com a escola e com as novas gerações.



