O poeta Lopito Feijóo defendeu, em Luanda, que a literatura deve ir além do exercício estético e contribuir para a formação de leitores mais críticos, atentos aos fenómenos que atravessam a sociedade.
A posição foi manifestada, na quarta-feira, em Luanda, durante a apresentação do seu mais recente poemário, “Na Esteira do Amargo Ofício”, na União dos Escritores Angolanos (UEA), obra em que o autor reafirma a escrita como espaço de reflexão, crítica e intervenção social.
Na sua intervenção, Lopito Feijóo considerou que não se pode separar o crítico literário do crítico social, uma vez que ambos partem de uma observação atenta da realidade. O poeta explicou que, mesmo quando produz literatura, mantém activa a sua veia crítica, assumindo o poder e a função das palavras, tanto nos versos quanto nas linhas e entrelinhas.
“Às vezes só lemos o que está escrito, mas aquilo que não está escrito e que é sugerido pelo texto também tem grande valia. Essa é a minha visão sobre o nosso contexto”, disse.
Ao abordar o título da obra, Lopito Feijóo explicou que “Na Esteira do Amargo Ofício” reflecte sobre as diferentes dimensões do exercício de ser escritor, uma actividade que, quando encarada com responsabilidade, está longe de ser simples.
“Qualquer exercício encarado com responsabilidade não é fácil e não é tão doce como pode parecer. Procuro um texto que seja lido daqui a 100 ou 200 anos”, afirmou.
Com mais de 60 poemas, divididos em três partes, o livro foi publicado pela editora Embuke, da província do Huambo, onde foi lançado em Maio deste ano, seguindo depois para a província do Bié e chegando agora ao público de Luanda.
Na apresentação da obra, o professor e crítico literário AC Khamba destacou a importância de um livro que, no seu entender, ultrapassa a dimensão de uma simples colectânea de poemas para propor uma reflexão sobre o papel da literatura e a responsabilidade de quem escreve.
“Nas suas produções, não pensem simplesmente na técnica, pensem também na temática. E as temáticas estão sobre nós. Como diz o professor Abreu Paxe, o provérbio não anda recto; nós acreditamos que a poesia também”, afirmou.
Para AC Khamba, a poesia de Lopito Feijóo estabelece um diálogo permanente com factos, situações e momentos que marcam a sociedade, incorporando episódios do quotidiano e acontecimentos de relevância social.
Entre os exemplos apontados pelo crítico está o gesto do então governador de Luanda, Luther Rescova, aquando da retirada da conhecida grua do Prenda, episódio que, segundo explicou, demonstra a forma como o poeta transforma acontecimentos concretos em matéria de criação e reflexão.
“Penso que todos nós estamos convidados a ler esse livro, sobretudo a entender as questões sociais actuais. Temos uma juventude muito atrevida, que pouco investiga e muito escreve. Ou seja, escreve muito sem escrever nada. E esse livro é um recado”, criticou.
Segundo a editora Embuke, o livro propõe uma travessia intelectual marcada por ensaios, reflexões e abordagens críticas que dialogam com diferentes momentos da literatura angolana, onde procura valorizar o papel da escrita enquanto instrumento de consciência social.



