O pesquisador Narciso Homem defendeu, quinta-feira, na Biblioteca Nacional de Angola, em Luanda, a necessidade de valorizar e estudar a memória ancestral angolana presente na cultura material, destacando que pinturas e esculturas também preservam contos, mitos e provérbios transmitidos ao longo de gerações.
No âmbito da II Conferência Nacional sobre Literatura Oral Angolana, onde apresentou o tema “Narrativas ancestrais em Angola: contos, mitos e provérbios à luz das pinturas rupestres e dos instrumentos artesanais”, Narciso Homem considerou que o estudo dos contos, mitos e provérbios não devem ficar limitados aos livros.
O investigador defendeu essa tese, uma vez que diferentes manifestações materiais da cultura angolana podem conter significados e narrativas que ajudam a compreender os valores e conhecimentos das gerações ancestrais.
“As narrativas não se encontram apenas nas palavras, mas podem ser procuradas em paisagens, pinturas, esculturas, lugares sagrados, grafismos e vestígios arqueológicos. A interpretação desses objectos e manifestações culturais pode permitir a recuperação de memórias, valores e conhecimentos transmitidos pelas gerações anteriores”, afirmou.
De acordo com Narciso Homem, um dos principais desafios está em encontrar especialistas capazes de interpretar e descodificar os significados presentes nas diferentes manifestações da cultura material.
Segundo o pesquisador, pinturas, esculturas, máscaras, batuques, cestas e outros instrumentos podem conter símbolos e narrativas que exigem conhecimentos específicos para serem devidamente compreendidos.
Narciso Homem considerou igualmente que a descodificação dessas manifestações pode revelar ensinamentos associados a valores como a coragem, inteligência, união e solidariedade, razão pela qual defende uma reflexão mais aprofundada sobre o património cultural e as narrativas que este conserva.
Durante a conferência, promovida pela Associação Cultural e Linguística Mwelo Weto, sob o lema “Vozes ancestrais, narrativas contemporâneas”, houve também espaço para outras intervenções, dentre as quais a do docente universitário Miguel Lubuato, que se debruçou sobre o tema “Oralidade versus redes sociais”.
No decorrer da explanação, Miguel Lubuato explicou que as redes sociais constituem actualmente um importante meio de preservação e promoção dos saberes oriundos da oralidade, ao permitirem que histórias, contos, provérbios, músicas e outras manifestações da tradição oral alcancem novos públicos e sejam partilhados de forma mais ampla.
Segundo o docente universitário, a utilização dessas plataformas pode contribuir para aproximar as novas gerações dos conhecimentos transmitidos tradicionalmente de forma oral, criando novas possibilidades de acesso, divulgação e continuidade dessas manifestações culturais.
Miguel Lubuato defendeu, assim, a necessidade de aproveitar as potencialidades das redes sociais para documentar e divulgar os saberes da tradição oral, garantindo que estes continuem a circular num contexto marcado por novas formas de comunicação.
O docente aproveitou a ocasião para apresentar o projecto “Dyembu Dyetu”, que tem sido uma plataforma online de promoção da oralidade.
A II Conferência Nacional sobre Literatura Oral Angolana decorreu durante dois dias e propôs um diálogo sobre a tradição, contemporaneidade, no sentido de valorizar a palavra, memória dos saberes ancestrais e as múltiplas manifestações da oralidade angolana.
A actividade pretendeu também levar a sociedade a compreender que a literatura não deve ser vista apenas como um conjunto de histórias destinadas ao entretenimento, mas também como um importante campo de estudo científico, capaz de produzir conhecimentos.



