
Kasato Maru e a origem de uma ligação centenária
Em 1908, o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos, no estado de São Paulo, com 781 imigrantes a bordo. Foi o início de uma relação que, mais de um século depois, se traz numa comunidade estimada entre dois e 2,7 milhões de nipo-brasileiros, frequentemente referida como a maior diáspora japonesa do mundo.
Zico, o catalisador da mudança
Em 1991, a lenda do "Mengão" e da selecção brasileira nos anos 80, assinou pelo Kashima Antlers e tornou-se o principal catalisador dessa transformação.
O antigo camisola 10 ajudou a profissionalizar o clube, foi uma das figuras da recém-criada J.League em 1993 e lançou as bases de um futebol mais técnico e criativo, sem abdicar da disciplina e da organização que continuam a definir a identidade da selecção nipónica.
Zico viria igualmente a guiar o Japão à Taça da Ásia em 2004 e os "Samurais Azuis" no Mundial 2006, na Alemanha.
De 2018 a 2022, foi director técnico do Antlers e, a partir de então, consultor técnico. O legado levou à colocação de uma estátua em sua homenagem em frente ao Estádio de Futebol de Kashima.
Miura e o caminho inverso
No caminho inverso surge Kazuyoshi Miura, o jogador mais longevo da história, que, aos 59 anos, se prepara para disputar uma 42.ª temporada ao serviço do Fukushima da terceira divisão do País do Sol Nascente.
Iniciou a profissional no Brasil, ao serviço do Santos FC, em 1986. Em entrevista à FIFA, recorda esse período como decisivo para a sua formação. "A alegria da vitória, a dor da derrota e o significado do trabalho duro - aprendi tudo isso no Brasil".
"Acredito sinceramente que o facto de ainda estar a jogar é graças à experiência que adquiri quando estive lá", acrescentou a lenda japonesa.
Cultura pop e identidade partilhada
Nos anos 90, o mangá e anime Captain Tsubasa, de 1981, alcançou um estatuto de fenómeno global, incluindo no Brasil, onde foi exibido em televisão aberta e ficou gravado nas memórias de uma geração inteira de adeptos.
Com mais de 90 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, a obra de Yoichi Takahashi ajudou a projectar a selecção nipónica no imaginário global.
A presença de elementos do futebol "canarinho" como Roberto Hongo, mentor de Tsubasa Ozora, no mangá e anime, e as referências a outros jogadores da "amarelinha", reforçam a conexão entre ambas nações. Já o São Paulo FC, campeão mundial de 1992 e 1993 sob o comando de Telê Santana, em Tóquio, simboliza essa ligação no plano desportivo.
Esta segunda-feira, quando Brasil e Japão medirem forças em Houston, saber-se-á se a marcha rumo ao hexa persiste ou se a ficção volta a ganhar vida, numa alusão inevitável ao universo de Captain Tsubasa, que retratou um triunfo por 3-2 frente ao "Escrete".
Percurso das equipas:
O Brasil chega aos dezasseis avos-de-final após uma fase de grupos consistente, com duas vitórias diante do Haiti e da Escócia, por 3-0, e um empate frente ao Reino de Marrocos (1-1) na jornada inaugural do grupo C.
Do outro lado, os japoneses, orientados por Hajime Moriyasu, garantiram o apuramento ao grupo F com dois empates diante dos Países Baixos (2-2) e da Suécia (1-1), e uma goleada por 4-0 frente à Tunísia, primeira representante africana afastada da competição.
A "amarelinha" parte com ligeiro favoritismo, sustentado pela tradição que carrega na prova pela qualidade individual, enquanto o Japão se apoia na organização colectiva e na maturidade competitiva que já lhe permitiu surpreender Espanha e Alemanha no Mundial do Qatar 2022. A maior ausência no conjunto nipónico é Takefusa Kubo, afastado por lesão após o encontro diante da "Laranja Mecânica", enquanto a equipa às ordens de Carlo Ancelotti apresenta-se na máxima força.
Principais chaves para a vitória:
Os "Samurais Azuis" terão pela frente aquele que simbolicamente coincide com o maior desafio das suas vidas. Apesar de terem saído vitoriosos do embate particular em Tóquio por 3-2 frente ao Brasil, em 2025, reconhecem que as circustâncias são completamente distintas nesta altura. Travar Vinicíus Júnior é um dos factores primordiais para confirmar o apuramento aos oitavos.
Todavia, o jogador do Real Madrid respira confiança com quatro golos e uma assistência anotadas em três encontros. Outro dos nomes a ter debaixo de olho é Matheus Cunha.
O atleta do Manchester United tem três golos marcados no mesmo número de embates na competição.
Por essa razão, Zion Suzuki tem de continuar a transmitir segurança na baliza e Ritsu Doan, Daichi Kamada e Keito Namakura precisam de exibir a grande nível no plano individual e o colectivo precisa de não ficar atrás.
Quanto aos comandados de Carlo Ancelotti sabem como quebrar blocos baixos, explorar as diagonais e as alas e usar criatividade para causar perigo iminente.
Factor-X:
Ayase Ueda vem de dois golos com a Tunísia o que lhe pode dar confiança para este duelo.
Neymar começa no banco, mas é sempre um suplente de luxo para qualquer conjunto, podendo entrar quando os japoneses estiverem com as pernas cansadas.
Noruega ou Costa do Marfim, eis a questão?
Durante 90 minutos, a bola irá rolar e só uma das duas selecções medirá forças com Costa do Marfim ou Noruega, que se enfrentam na terça-feira, a 30 de Junho.
Brasil e Japão não são apenas países atrás de um esférico. São culturas profundamente ligadas por mais de um século de história e que, durante 90 minutos, disputarão muito mais do que um lugar nos oitavos-de-final.





