
Durante décadas, o crescimento económico africano foi amplamente associado à exploração de recursos naturais. Petróleo, gás, diamantes, ouro, cobre, bauxite e outros minerais constituíram a base das exportações e das receitas públicas de muitas economias do continente. Contudo, os sinais mais recentes revelam uma mudança estrutural que merece atenção: a indústria extrativa está gradualmente a deixar de ser o principal motor do crescimento económico em várias economias africanas.
Cinco das nove economias que atualmente registam as taxas de crescimento mais elevadas em África demonstram que o dinamismo económico está a ser impulsionado por sectores como as infraestruturas, os transportes, a logística, a agricultura, a indústria transformadora e a tecnologia. Esta transformação representa uma mudança profunda no modelo de desenvolvimento africano e aponta para uma economia mais diversificada, resiliente e orientada para a criação de valor.
Os exemplos são claros. A Etiópia consolidou-se como um dos maiores centros industriais do continente através da expansão da sua capacidade produtiva e industrial. O Benim tem investido na modernização da logística e dos corredores comerciais, fortalecendo a sua posição como plataforma regional de comércio. O Ruanda tornou-se uma referência na inovação tecnológica e na digitalização da administração pública e dos serviços. A Costa do Marfim demonstra como a valorização da cadeia do cacau pode gerar maior riqueza nacional, enquanto o Djibuti transformou a sua localização estratégica num dos mais importantes centros portuários e logísticos de África.
Esta nova realidade resulta de reformas estruturais, investimentos públicos e privados, melhoria do ambiente de negócios e de uma visão de longo prazo que privilegia sectores capazes de gerar emprego, inovação e maior valor acrescentado. Ao contrário da indústria extrativa, frequentemente sujeita à volatilidade dos preços internacionais e às oscilações da procura global, estes sectores oferecem bases mais sustentáveis para o crescimento económico.
Não se trata de abandonar os recursos naturais, que continuarão a desempenhar um papel relevante em muitas economias africanas. O verdadeiro desafio consiste em utilizá-los como instrumentos para financiar a diversificação económica, promover a industrialização e fortalecer as cadeias de valor locais, reduzindo a dependência da exportação de matérias-primas em estado bruto.
As oportunidades de negócio em África também estão a mudar. Já não se resumem à exploração dos recursos minerais que, durante décadas, atraíram o interesse das grandes potências económicas. O continente começa a construir um novo paradigma, no qual o investimento se dirige para sectores capazes de transformar matérias-primas, desenvolver tecnologia, modernizar a agricultura, expandir a logística e integrar mercados.
O futuro económico de África está, cada vez mais, a ser desenhado pelos próprios africanos. A criação de cadeias de valor dentro do continente, impulsionada pela integração económica regional e pelo empreendedorismo local, demonstra que o desenvolvimento sustentável dependerá menos da abundância dos recursos naturais e mais da capacidade de produzir conhecimento, inovação e competitividade.
A nova narrativa africana não é apenas sobre crescimento económico; é sobre transformação estrutural. E essa transformação poderá representar a maior oportunidade de desenvolvimento que o continente conheceu desde as independências.
Isaac Cangundo Presidente da Conferência Cristã para o Crescimento Empresarial.



