Angola entra no top 6 de África, mas o crude ainda manda na economia

Angola ultrapassou o Quénia e tornou-se a sexta maior economia de África, mas o feito deve-se, em larga medida, à subida dos preços internacionais do petróleo, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).
O PIB nominal angolano situa-se agora nos 152,35 mil milhões de dólares, contra 147,26 mil milhões do país da África Oriental — uma diferença que a instituição atribui directamente à valorização do crude nos mercados globais.
Segundo as projecções do FMI para 2026, o top 10 das maiores economias africanas é liderado pela África do Sul (479,96 mil milhões de dólares), seguida do Egipto (429,64 mil milhões), da Nigéria (377,37 mil milhões), da Argélia (317,17 mil milhões) e de Marrocos (194,33 mil milhões).
Angola surge em sexto lugar, à frente do Quénia (147,26 mil milhões), da República Democrática do Congo (123,41 mil milhões), da Etiópia (121,53 mil milhões) e do Gana (118,29 mil milhões), que fecha a lista das dez maiores economias do continente. O peso do petróleo nas contas externas do país continua a ser esmagador.
Segundo o FMI, o sector representa cerca de 25% do PIB, 60% das receitas fiscais e 94% das exportações angolanas. O Banco Africano de Desenvolvimento avança números ainda mais elevados, apontando 28,9% do PIB e 95% das exportações. Os dados do próprio Executivo angolano confirmam a tendência: o petróleo respondeu por 57,2% das receitas fiscais em 2025.
Para o FMI, as perspectivas de médio prazo mantêm-se “contidas”, uma vez que as receitas petrolíferas estão em declínio estrutural. A instituição alerta ainda que a dívida pública angolana poderá atingir o limite legal a médio prazo, caso o ritmo actual se mantenha.
O verdadeiro teste, sublinham analistas, é saber se Angola conseguirá sustentar o crescimento económico sem depender de um barril de petróleo valorizado.
Apesar do peso do crude, o Executivo defende que a economia está a mudar de figura. Segundo dados oficiais, o sector não petrolífero já representa cerca de 80% do PIB, e a expectativa é que, pela primeira vez em 2026, as receitas não petrolíferas superem as petrolíferas — uma projecção de 10,6 biliões de kwanzas, o equivalente a cerca de 11,4 mil milhões de dólares.
Os números macroeconómicos recentes dão algum crédito à narrativa. O PIB real angolano cresceu 3,13% em 2025, e os dados nacionais apontam para uma expansão homóloga de 5,32% no primeiro trimestre de 2026, impulsionada pelo sector não petrolífero, enquanto a produção de petróleo recuou ligeiramente no arranque do ano.
A inflação, uma das principais preocupações da economia angolana nos últimos anos, também dá sinais de alívio. Em Junho de 2026, os preços ao consumidor subiram 10,11% em termos homólogos, abaixo dos 15,7% registados no final de 2025 e muito longe dos 27,5% de finais de 2024.
Trata-se do valor mais baixo desde 2015, resultado, segundo analistas, de uma política monetária mais restritiva, das reformas cambiais em curso e do alívio das pressões sobre a oferta. O FMI projecta que a inflação desça para cerca de 10% até 2027.
Também o mercado de trabalho e a segurança alimentar registaram melhorias. A taxa de desemprego caiu para 21,3% em 2025, de acordo com uma nova metodologia da Organização Internacional do Trabalho, enquanto a insegurança alimentar severa recuou de 19,5% para 11,7%. A dívida pública, por seu lado, baixou para 46,94% do PIB no mesmo ano.
É nos sectores da logística, mineração e agricultura que a aposta na diversificação ganha agora maior visibilidade. O Corredor do Lobito, linha ferroviária de 1.300 quilómetros que liga o porto do Lobito às zonas de cobre e cobalto na República Democrática do Congo e na Zâmbia, entrou numa nova fase depois de um pacote de financiamento de 753 milhões de dólares.
Angola aposta ainda em projectos ligados a terras raras e ao agronegócio, na tentativa de consolidar uma base económica menos dependente dos hidrocarbonetos. Resta saber se os ganhos de receita gerados pelos impostos, pelo comércio e pela indústria se manterão quando os preços do petróleo regressarem a níveis mais moderados. Só nessa altura ficará claro se a economia pós-petróleo angolana se tornou, de facto, estrutural — ou se continua, por enquanto, a beneficiar de um excedente meramente cíclico.


