BODIVA está a crescer, sim, mas quase inteiramente à sombra do Estado

As negociações na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) cresceram 90 mil milhões de kwanzas no primeiro trimestre de 2025, atingindo um total de 1,3 biliões Kz — o equivalente a cerca de 1,4 mil milhões de dólares, avança o Correio Digital.
Segundo a fonte, apesar deste crescimento robusto, as acções continuam a representar apenas 0,1% do mercado bolsista angolano, com a dívida pública a dominar completamente o cenário.
Num país onde a bolsa ainda é uma realidade distante para muitos cidadãos, esta evolução levanta questões importantes: O que está realmente a crescer? O que explica o desinteresse pelas acções? E por que é importante diversificar o mercado de capitais?
O que impulsionou o crescimento da bolsa?
De acordo com dados da BODIVA analisados pelo jornal Expansão, o aumento de 7,5% no volume total de negociações deveu-se quase exclusivamente à compra e venda de títulos da dívida pública:
Em resumo: mais de 99,9% de todo o volume transaccionado na bolsa está concentrado na dívida do Estado — algo que, embora contribua para a solidez da plataforma, revela uma enorme dependência de um único tipo de activo.
E as acções? Cresceram… mas ainda valem pouco
Mesmo com um crescimento de 624% nas negociações em acções (de 107,8 para 780,6 milhões Kz), este segmento ainda representa apenas 0,1% do volume total da BODIVA. Este aumento foi impulsionado, sobretudo, pela entrada de novas empresas em bolsa no segundo semestre de 2024, nomeadamente:
Estas vieram juntar-se ao BAI (Banco Angolano de Investimentos) e ao BCGA (Banco Caixa Geral Angola), únicas empresas cotadas até então.
Por que razão os angolanos investem tão pouco em acções?
Por que é importante diversificar? O mercado de capitais não deve viver apenas da dívida pública. Um mercado accionista forte: • Apoia o crescimento das empresas, dando-lhes acesso a financiamento. • Permite que os cidadãos se tornem investidores e compartilhem dos lucros das empresas. • Reduz a dependência do Estado como motor principal da economia. • Aumenta a transparência e a competitividade empresarial.
As acções que mais valorizaram Apesar do volume reduzido, o mercado de acções está a dar sinais de vitalidade e rentabilidade:
Além disso, várias empresas distribuíram dividendos, aumentando o interesse do pequeno investidor.
Caminho para o futuro: o que falta? • Campanhas de literacia financeira, especialmente para jovens e funcionários públicos. • Incentivos fiscais para investidores individuais. • Mais empresas privadas e públicas cotadas – o que criaria um leque maior de opções. • Acesso digital simplificado – investir na bolsa ainda é burocrático e tecnicamente distante para muitos angolanos.
A BODIVA está a crescer, sim, mas quase inteiramente à sombra do Estado. Para que o mercado de capitais angolano cumpra o seu verdadeiro papel — o de financiar a economia real, gerar riqueza e inclusão financeira — é preciso fortalecer o mercado de acções, atrair novos investidores e educar o público sobre as oportunidades que existem fora da dívida pública. Angola tem potencial. O desafio é transformar esse potencial em cultura de investimento.



