China e Ocidente disputam controlo das rotas de exportação de cobre em África

Dois corredores ferroviários em África Austral e Central tornaram-se, nos últimos anos, num dos principais pontos de disputa geoestratégica entre a China e os Estados Unidos, apoiados pela União Europeia, segundo análises do sector citadas pela Jeune Afrique.
Em causa estão o corredor do Tazara, que liga a Zâmbia ao porto de Dar es Salam, na Tanzânia, e o corredor do Lobito, que liga as províncias mineiras do Lualaba e do Alto Katanga, na RDC, ao porto angolano do Lobito, também através da Zâmbia.
Os dois eixos logísticos foram inicialmente concebidos com objectivos semelhantes: desbloquear o acesso ao mar da África Austral e da África Central, estimular o comércio regional e favorecer o surgimento de zonas industriais ao longo dos seus traçados.
Actualmente, no entanto, ambos os corredores funcionam também como instrumento de controlo das rotas de exportação dos minerais críticos da região da Copperbelt. A RDC e a Zâmbia produziram, em 2025, cerca de 4,2 milhões de toneladas de cobre por ano, o equivalente a quase 17% da produção mundial.
Este valor deverá aumentar nas próximas décadas, podendo atingir entre 5,5 e 6,6 milhões de toneladas anuais até 2030, correspondendo a um valor de mercado anual estimado em cerca de 50 mil milhões de dólares. Segundo as previsões da Agência Internacional de Energia, a procura mundial de cobre deverá aumentar 40% até 2040, enquanto a procura mundial de cobalto deverá crescer 120% no mesmo período.
A RDC detém 74% das reservas mundiais deste metal, essencial ao fabrico de baterias de carros eléctricos e smartphones.
A China controla cerca de 78% da produção mundial de cobalto e cobre, e os portos de Dar es Salam, na Tanzânia, de Durban, na África do Sul, e da Beira, em Moçambique, constituem historicamente as principais portas de saída da produção regional destes metais. “A equação é simples.
Grande parte destes minérios é explorada por grupos chineses que garantem o abastecimento do seu próprio país”, explica o especialista em minas Christian Géraud Neema, citado pela Jeune Afrique. “A preferência dos actores é, por isso, passar por Dar es Salam, já que, a partir da Copperbelt, o oceano Índico continua a ser a via mais rápida para chegar à China.”
Pequim financiou e lançou, em 1970, a construção do corredor do Tazara, um dos projectos de ajuda ao desenvolvimento mais dispendiosos alguma vez lançados pelo país e o eixo privilegiado do sector mineiro na região.
O corredor, com 1.860 km de extensão, liga Dar es Salam a Kapiri Mposhi, no centro-norte da Zâmbia. Desde a sua entrada em funcionamento, em 1976, a linha férrea já transportou mais de 30 milhões de toneladas de mercadorias e mais de 40 milhões de passageiros.
Do lado ocidental está o corredor do Lobito, que liga o porto angolano com o mesmo nome às regiões mineiras do sul da RDC e à Copperbelt zambiana. Tornou-se um dos projectos emblemáticos do Partnership for Global Infrastructure and Investment (PGII), iniciativa lançada pelo G7 para financiar infra-estruturas estratégicas em países emergentes. Washington já mobilizou cerca de 800 milhões de dólares através da U.S. International Development Finance Corporation (DFC), enquanto a União Europeia fez dele um dos projectos de referência em África no âmbito da sua iniciativa Global Gateway.
O troço que atravessa a RDC é operado pela Lobito Atlantic Railway, um consórcio composto pela trading de matérias-primas Trafigura (49,5%), a construtora Mota-Engil (49,5%) e o operador ferroviário Vecturis (1%). Ainda faltam construir várias infra-estruturas antes de o corredor poder funcionar em pleno: o objectivo é transportar até 5 milhões de toneladas de carga por ano até 2030, com a capacidade do porto do Lobito a poder ser elevada para cerca de 4,6 milhões de toneladas anuais.
Se a linha ferroviária angolana já foi largamente reabilitada nos últimos anos, o troço zambiano ainda está por concluir. A instituição financeira Africa Finance Corporation (AFC), que lidera o desenvolvimento do corredor entre Angola e a Zâmbia, assinou em Outubro de 2024 acordos de concessão com os dois países.
Segundo apurou a Jeune Afrique, a AFC prevê o lançamento de uma angariação de fundos no segundo semestre de 2026 para viabilizar a construção desta nova linha férrea, que deverá ligar a linha de Benguela-Luacano, em Angola, à de Chingola, na Zâmbia. O projecto está avaliado em mais de 5 mil milhões de dólares.
A AFC conta tirar partido do crescimento de projectos mineiros na Copperbelt, como a jazida de cobre de Mingomba, na Zâmbia, desenvolvida pela junior norte-americana Kobold Metals, apoiada, entre outros, pelos empresários norte-americanos Jeff Bezos e Bill Gates. Segundo as autoridades zambianas, a mina de Mingomba tem capacidade para extrair 550 mil toneladas de cobre por ano.
A Kobold Metals detém ainda sete licenças de pesquisa na RDC, numa vasta área em torno de Manono, na província do Tanganyika. A AFC estima que, para atingir o ponto de equilíbrio financeiro, sejam necessárias 2 milhões de toneladas de carga a transitar anualmente pelos 515 km do troço zambiano.
Perante o avanço do projecto do Lobito, e após várias décadas de subinvestimento, a China injectou, no final de 2025, 1,4 mil milhões de dólares para modernizar o corredor do Tazara. Este financiamento prevê a reabilitação completa das linhas, a aquisição de mais de 30 novas locomotivas e de cerca de 760 vagões, a modernização dos sistemas de sinalização e o desenvolvimento de novas capacidades logísticas.
As autoridades chinesas pretendem elevar o tráfego anual do corredor para 2 milhões de toneladas de carga, contra as actuais 500 mil toneladas, na expectativa de consolidar o papel de Dar es Salam como principal saída oriental das exportações mineiras. “Para Pequim, a questão vai muito além do domínio ferroviário. A China continua a ser o maior refinador mundial de cobalto e um dos principais transformadores de cobre. Preservar um acesso fluido aos minérios da Copperbelt constitui uma prioridade industrial e estratégica”, observa Christian Géraud Neema.
A competição entre o Lobito e o Tazara ganha ainda uma dimensão adicional com o acordo mineiro, em negociação, entre Washington e Kinshasa. Ainda que a parceria não esteja finalizada, vários actores do sector já consideram o corredor do Lobito como um dos principais instrumentos para a sua implementação.
Segundo um especialista em infra-estruturas e associado da consultora EY, citado pela Jeune Afrique, “para os Estados Unidos, o objectivo vai além de simplesmente garantir o acesso aos minérios congoleses. Trata-se também de construir cadeias de abastecimento integradas, desde a extracção até à transformação industrial, apoiadas em infra-estruturas menos dependentes dos circuitos dominados pela China”.



