Cimeira UA-UE: O xadrez de Angola entre o Ocidente e a China

Angola acolhe cimeira União Africana-União Europeia, enquanto potências mundiais se digladiam por mais influência. Ocidente ganhou terreno em Angola com o Corredor do Lobito, mas comunidades só veem comboios passar.
As rivalidades geopolíticas têm as suas vantagens – basta perguntar a Angola quantos países têm disputado a sua atenção recentemente. Tem sido uma azáfama em Luanda, com delegações internacionais a entrar e sair da capital a um ritmo raramente visto.
Há menos de um mês houve uma Cimeira da União Africana sobre infraestruturas. Pouco depois, o Presidente alemão Frank-Walter Steinmeier visitou o país para sondar oportunidades de investimento. A Alemanha procura parceiros depois de ter virado as costas ao petróleo e gás russos, devido à invasão em larga escala da Ucrânia, e Angola é um gigante energético.
"Angola é um parceiro que foi injustamente posto de parte pela política alemã," afirmou Steinmeier. "Não é apenas interessante para o mundo como fornecedor de petróleo e gás, mas nos últimos anos também sinalizou que quer diversificar a sua própria economia. Isso torna Angola um parceiro evidente para o diálogo com a Alemanha."
Depois da visita de Steinmeier, chegaram mais convidados de alto nível. Nas celebrações do 50.º aniversário da independência de Angola, a 11 de novembro, participaram dignitários de todo o mundo, incluindo a China, que aproveitou a ocasião para reafirmar a sua relação especial com o país. Agora, nos dias 24 e 25 de novembro, 47 chefes de Estado e de Governo vão reunir-se em Luanda para a sétima Cimeira União Africana-União Europeia, para aprofundar a cooperação.
O multilateralismo será um tema central: como enfrentar desafios comuns como segurança e migração, equilibrando as relações Norte-Sul globais. Isto exigirá necessariamente financiamento adicional: "Uma das principais prioridades do Presidente João Lourenço como presidente em exercício da União Africana é o financiamento de infraestruturas. Isto é fundamental", diz o ministro dos Transportes de Angola, Ricardo Viegas D'Abreu.
"Precisamos de mais infraestruturas. Em África, de 170 mil milhões de dólares de necessidades anuais de financiamento, conseguimos cobrir apenas cerca de 40 a 60 mil milhões. A lacuna é enorme e é algo que temos de resolver", acrescenta.
Corredor do Lobito: Minerais valiosos rumo ao Ocidente
Por estes dias, as conversas sobre infraestruturas em Angola acabam sempre por terminar no mesmo tema: o Corredor do Lobito, um projeto de orgulho nacional.
A principal artéria do corredor é uma linha ferroviária de 1.300 quilómetros entre Angola, a República Democrática do Congo (RDC) e, futuramente, a Zâmbia, que liga o interior africano rico em minerais ao porto do Lobito, na costa atlântica.
Os comboios já circulam. Transportam sobretudo cobre das minas da RDC para o Lobito, que é depois levado para a Europa e os Estados Unidos. Na viagem de regresso, os vagões levam enxofre para a RDC, necessário para o trabalho nas minas.
À primeira vista, quando visitámos os trechos no Huambo e Caála, a linha férrea pode não parecer impressionante – é sobretudo uma via única, sem vedação, e com estações relativamente pequenas.
Quem conhece a linha sabe também que os comboios de mercadorias ainda circulam lentamente, a uma velocidade máxima de 45 km/h e, nalguns troços, apenas 30 km/h. Procedimentos alfandegários burocráticos também causam atrasos, como observou a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) num relatório de 2025 sobre o corredor.
Mesmo assim, o projeto oferece uma vantagem competitiva significativa, nota Anna Hoffmann-Kwanga, chefe do escritório da Fundação Konrad Adenauer na Namíbia e Angola, ligada ao partido conservador alemão CDU.
"Pelo que sei, as velocidades serão melhoradas. Além disso, a linha compete praticamente com um corredor da RDC que segue para sul até Durban e que demora cerca de 30 dias, enquanto a distância até ao Lobito levaria apenas oito dias no melhor cenário; mesmo com atrasos, seria só metade do tempo", diz Hoffmann-Kwanga.
Só se transportam minerais? E o resto?
Há muito que os Estados Unidos conhecem o potencial do Corredor do Lobito. Um relatório desclassificado da CIA de 1966 já o destacava como "uma rota alternativa" para o tráfego de importação e exportação da Zâmbia pelo Atlântico.
A linha ferroviária remonta ao início do século XX. Construída durante a era colonial portuguesa, foi fortemente danificada durante a guerra de independência de Angola e a guerra civil que se seguiu, tendo sido mais tarde reconstruída com o apoio de Pequim.
A China financiou a reconstrução usando petróleo angolano como garantia, como fez com muitos outros projetos no pós-guerra – Angola acabou por se tornar o maior devedor africano da China (um total estimado de 46 mil milhões de dólares de dívida, segundo dados compilados pela Universidade de Boston).
Angola está agora a tentar equilibrar a sua dependência da China. Desde que tomou posse em 2017, o Presidente João Lourenço tem sondado parceiros ocidentais, e estes estão a responder. Tanto a União Europeia como os EUA prometeram milhares de milhões para o projeto do Corredor do Lobito; a linha está a ser operada por um consórcio europeu.
"A proposta da Europa é muito diferente", comenta Anna Hoffmann-Kwanga, da fundação alemã Konrad Adenauer. "O Corredor do Lobito rompe com a lógica extrativa de outros corredores, tanto coloniais como atuais, que seguem para leste, são liderados pela China e se concentram na extração."
Um dos objetivos do projeto do Corredor do Lobito, explica Hoffmann-Kwanga, é melhorar as condições de vida de todas as comunidades ao longo da rota. Angola quer transformá-lo num "corredor de desenvolvimento económico", estimulando o investimento privado – da agricultura ao turismo.
No entanto, as comunidades limitam-se a ver os comboios passar, observa o economista angolano Heitor de Carvalho.
Como as comunidades podem beneficiar
A área do corredor é predominantemente agrícola, maioritariamente tradicional, e ainda é necessário construir infraestruturas que permitam aos agricultores vender os seus produtos noutras regiões, escoando-os através da linha férrea do Lobito, acrescenta Carvalho.
É preciso melhorar as redes rodoviárias, construir armazéns junto às estações e aumentar a produção. "Estou a falar de um aumento exponencial – não é 3%, mas 300%", afirma o economista.
Para isso, os agricultores precisariam de sementes e ferramentas de trabalho, além de uma mentalidade mais virada para os negócios. Esse é o primeiro passo para as comunidades começarem a lucrar, de acordo com o professor Heitor de Carvalho.
O segundo passo seria replicar o que já provou ser um sucesso na China: pelo menos numa fase inicial, concentrar a produção em artigos com "menor exigência e qualidade, mas que têm bom preço", tornando-os acessíveis a todos os consumidores, tanto em Angola como no estrangeiro. Produções mais complexas – por exemplo, acrescentando valor aos minerais extraídos na região – poderiam surgir em fases posteriores.
Os investimentos europeus e americanos são bem-vindos, acrescenta Heitor de Carvalho: "Este interesse tem muito a ver com o facto de a direção política em Angola ter optado por uma solução pró-ocidental em vez dos laços tradicionais com a Rússia e a China. Mas, para nós, é bom que haja esta rivalidade, que nós aproveitamos no nosso interesse", afirma.
O que se alcança numa cimeira?
Porém, o ambiente de negócios continua a ser um desafio. Muitas empresas continuam a encarar investimentos em Angola como um risco; no país operam atualmente apenas algumas dezenas de empresas alemãs, por exemplo. Angola continua a depender fortemente do setor petrolífero e o acesso ao financiamento e a burocracia são obstáculos. Apesar das promessas do Presidente João Lourenço, os angolanos também continuam a duvidar que a corrupção esteja a ser combatida devidamente, observa Anna Hoffmann-Kwanga, da Fundação Konrad Adenauer.
Esse é um dos motivos que leva Amílcar Armando, professor universitário e empresário do agronegócio, a encarar a cimeira União Africana-União Europeia com ceticismo.
"O Presidente João Lourenço quer colocar Angola no centro das atenções do mundo, mas penso que não há qualquer vantagem em realizar estas cimeiras em África. A sensação com que fico é que essas cimeiras servem para mendigar dinheiro para esses projetos, provavelmente para cair na malha da corrupção. É o que mais existe nos nossos países africanos", afirma Amílcar Armando.
Angola devia, no entanto, ser o desenvolvimento das próprias infraestruturas, por mão nacional.
O professor e empresário angolano lembra que, apesar dos satélites que Angola lançou com a Rússia, muitas salas de aula universitárias continuam sem acesso à Internet; as estradas estão cheias de buracos, incluindo próximo a zonas de luxo em Luanda. Angola, reforça Armando, tem de fazer o seu trabalho de casa; as necessidades imediatas das pessoas é o que vem em primeiro lugar – não são as cimeiras.
Mas os líderes mundiais continuam a fazer fila na capital para conseguir senha para o futuro de Angola – e de África.
"Angola deixou de fazer parte do foco da política alemã"
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