O incremento de 8,74% da economia nacional entre Abril e Junho do ano em curso deve ser encarado como uma oportunidade para transformar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em produtividade, emprego, investimento e rendimento das famílias.
A avaliação é de especialistas ouvidos pelo Jornal de Economia & Finanças (JEF), que recomendam cautela e contêm o optimismo em relação à real diversificação da economia.
Para Eurico Gonçalves, especialista em Assuntos Políticos e Económicos, o resultado deve ser encarado como uma oportunidade para transformar o crescimento do PIB em produtividade, emprego, investimento e rendimento das famílias.
Na sua leitura, o maior dinamismo dos sectores Não Petrolíferos mostra que existe uma base económica com potencial para ganhar peso na criação de riqueza. Aponta, por exemplo, a Agricultura e Agro-indústria, Indústria Transformadora, Transportes, Serviços, Economia Digital e Capital Humano como áreas com capacidade para sustentar uma expansão menos dependente do petróleo.
“Estes números merecem confiança, mas também discernimento. Crescimento económico é uma condição necessária; desenvolvimento humano sustentável é a finalidade”, acrescenta Eurico Gonçalves, explicando que a questão estratégica para Angola já não deve ser apenas quanto o PIB cresce, mas quanto desse crescimento se transforma em produtividade, emprego, rendimento das famílias, investimento, receitas públicas, redução da vulnerabilidade externa e melhoria sustentável da qualidade de vida.
De acordo com o especialista, o desempenho do sector Não Petrolífero merece particular atenção, entendendo que o resultado do segundo trimestre do ano sinaliza a existência de uma base económica capaz de ganhar maior peso.
Entretanto, Eurico Gonçalves adverte que crescimento não significa automaticamente diversificação.
Crescimento foi influenciado pela conjugação de três indicadores fundamentais
Para Luindula Miguel, especialista em Microeconomia, a conjugação de indicadores como crescimento económico, desaceleração da inflação e estabilidade cambial pode reforçar a confiança dos agentes económicos, facilitar o planeamento empresarial e criar condições mais favoráveis ao investimento.
“Um crescimento real homólogo de 8,74% e uma variação trimestral de 2,75%, quando ajustada à sazonalidade, não são apenas estatísticas macroeconómicas: são o retrato de uma economia que está, finalmente, a crescer de forma mais equilibrada do que em ciclos anteriores”, explica o economista.
De acordo com Luindula Miguel, o aspecto mais relevante deste resultado não é a magnitude do crescimento, mas a sua composição.
A seu ver, o respectivo crescimento não pode ser analisado isoladamente da trajectória recente da inflação, que, depois de anos em alta, atingiu, em Julho deste ano, finalmente o terreno de um dígito.
“Esta é uma mudança qualitativa, não apenas quantitativa. Uma inflação de um dígito reduz a incerteza sobre preços futuros, facilita o planeamento das empresas e devolve algum poder de compra às famílias, sobretudo às de rendimentos mais baixos, historicamente as mais penalizadas pela erosão inflacionária”, acrescenta o economista.
Apesar de reportar optimisto em relação ao crescimento da economia nacional entre Abril e Junho, Luindula Miguel entende que há, ainda assim, motivos para prudência analítica.
A este respeito, explica que um único ano a se obter bom desempenho económico não constitui uma tendência estrutural, além de sublinhar que a economia angolana continua exposta à volatilidade dos preços internacionais do petróleo, que, a seu ver, influenciam tanto a Receita Fiscal como a disponibilidade de divisas.
“A sustentabilidade da desinflação dependerá da capacidade de manter a disciplina nas Políticas Monetária e Cambial, evitando que choques externos ou pressões de despesa pública revertam os ganhos recentes”, sugere o especialista, para quem a estabilidade cambial, em particular, só se consolida como âncora credível se resultar de fundamentos sólidos, e não de uma gestão administrativa que mais tarde se revele insustentável. &



