Falta de interesse das novas gerações em agricultura ameaça segurança alimentar em África

A falta de interesse das novas gerações pela agricultura está a colocar em risco a segurança alimentar em África, numa altura em que a população agrícola envelhece rapidamente e cada vez menos jovens demonstram vontade de dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelas suas famílias no campo.
Segundo uma análise publicada pelo Fórum Económico Mundial (World Economic Forum – WEF), a sucessão geracional na agricultura familiar tornou-se um dos principais desafios para o continente, devido ao abandono da actividade por parte dos jovens, que procuram melhores oportunidades de emprego e rendimento nas cidades ou noutros sectores da economia.
De acordo com o WEF, esta tendência ameaça não apenas a produção de alimentos, mas também a preservação de conhecimentos tradicionais acumulados ao longo de gerações. Os pequenos agricultores detêm um saber prático sobre os solos, os ciclos climáticos, as variedades de sementes e a gestão dos recursos hídricos que, em muitos casos, nunca foi documentado e continua a ser transmitido oralmente.
A organização compara este fenómeno ao desaparecimento das chamadas “Nana Benz”, influentes comerciantes de tecidos da África Ocidental que dominaram o comércio regional nas décadas de 1960 e 1970. Com a morte das suas fundadoras e a opção dos seus descendentes por outras profissões, grande parte da experiência e das redes comerciais construídas ao longo de décadas perdeu-se.
No caso da agricultura, o impacto poderá ser ainda mais profundo. A ausência de uma nova geração de agricultores poderá comprometer a capacidade das comunidades rurais para responder às alterações climáticas, reduzir a produtividade e fragilizar os sistemas locais de abastecimento alimentar.
O Fórum Económico Mundial cita igualmente um estudo desenvolvido pela organização Farming Out of Poverty, na Serra Leoa, que utilizou a metodologia Poverty Stoplight para analisar dezenas de famílias agrícolas. A investigação concluiu que a maioria dos jovens prefere investir na educação ou criar pequenos negócios fora da agricultura, em vez de aplicar recursos na produção de alimentos.
Perante este cenário, especialistas defendem que a renovação geracional exige políticas públicas integradas que vão além do apoio financeiro ao sector. Entre as prioridades apontadas estão o acesso dos jovens à terra, ao crédito, à formação técnica, à tecnologia e aos mercados, tornando a agricultura uma actividade mais rentável, moderna e socialmente valorizada.
Para o WEF, garantir a segurança alimentar de África dependerá, em grande medida, da capacidade dos governos e parceiros de desenvolvimento em tornar a agricultura uma opção de futuro para as novas gerações, preservando simultaneamente o conhecimento tradicional que sustenta a produção agrícola no continente.


