Fim de uma era: inflação angolana desce a um dígito depois de 12 anos

Índice de Preços no Consumidor fixou-se em 9,33% em Julho, encerrando 24 meses consecutivos de desacelaração e atingindo o nível mais baixo desde o início da série estatística do INE.
A taxa de inflação homóloga em Angola desceu para 9,33% em Julho, situando-se pela primeira vez abaixo dos dois dígitos desde que a série do Índice de Preços no Consumidor Nacional (IPCN) começou a ser calculada, em 2015, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
O valor representa uma desacelaração de 0,78 pontos percentuais face aos 10,11% registados em Junho, e um recuo de 10,15 pontos percentuais em relação ao mesmo mês do ano passado, quando a inflação homóloga se fixava ainda em 19,48%.
É a confirmação de uma trajectória de queda que já soma 24 meses consecutivos, e que só tinha produzido um resultado abaixo de dois dígitos uma única vez antes — em Junho de 1994, com 6,89%, mais de duas décadas antes do início da actual série estatística do INE.
A desacelaração não é uniforme em todo o país. Seis províncias mantêm ainda a inflação em terreno de dois dígitos, com destaque para Cabinda, que regista os preços mais altos do país (13,09%), seguida de Malanje (12,01%) e da Lunda Sul (11,40%).
No sentido inverso, Cuanza Norte, Huambo e Cunene apresentam as variações mais baixas de preços a nível nacional.
Por classes de despesa, a Educação foi a que registou o maior aumento homólogo, com uma subida de 25,24%, seguida da Alimentação e Bebidas Não Alcoólicas (10,40%), da Habitação, Água, Electricidade e Combustíveis (10,17%) e da Saúde (10,16%).
Ainda assim, é a Alimentação e Bebidas Não Alcoólicas que continua a pesar mais no índice geral: contribuiu com 6,30 pontos percentuais para a inflação de Julho, muito à frente da Educação (0,47 pontos), dos Bens e Serviços Diversos (0,46 pontos) e da Saúde (0,44 pontos).
O resultado de Julho já era antecipado pelos analistas. O Banco de Fomento Angola (BFA) tinha projectado, ainda antes da divulgação oficial, que a inflação homóloga poderia descer para cerca de 9,1% já nesse mês, o primeiro valor abaixo de dois dígitos desde que há registo, apontando dois factores centrais para a redução do ritmo de subida dos preços: a estabilidade cambial mantida desde o final de 2024, que tem reduzido significativamente o efeito de contágio (pass-through) sobre os preços internos, e o aumento da produção nacional em sectores-chave do consumo das famílias.
A trajectória de desacelaração também tem levado o Banco Nacional de Angola (BNA) a rever em baixa, sucessivamente, as suas próprias projecções.
Em meados de Julho, o governador Manuel Tiago Dias anunciou que o Comité de Política Monetária reviu a estimativa de inflação para o final de 2026 para 8,6% com uma margem de mais ou menos um ponto percentual, um corte expressivo face aos 11,5% que o próprio banco central previa na reunião anterior, em Maio.
A instituição tinha já revisto em alta, na mesma ocasião, a previsão de crescimento económico para 3,6%. O actual ciclo de desacelaração remonta a Maio de 2024, quando a inflação homóloga começou a recuar de forma consistente a partir de um pico de 31,09% registado em Julho desse ano.
Um ano depois, em Março de 2025, a taxa já tinha caído para 23,85%; em Março de 2026, situava-se em 12,42%. Com o valor de Julho, Angola aproxima-se agora do objectivo de médio e longo prazo que o governador do BNA tem repetidamente afirmado ser a prioridade da política monetária do país: consolidar uma inflação de um dígito, de forma sustentada, depois de mais de uma década em que os preços cresceram, em média, acima dos 20% ao ano.


