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Vale a pena, para a Sonangol, abdicar de um dos últimos instrumentos de influência económica angolana e de uma refinaria em Portugal, em troca de promessas vagas de investimento futuro?
A 8 de Janeiro, em comunicado público, a petrolífera portuguesa Galp e os accionistas da Moeve (Mubadala e Carlyle) anunciaram negociações para fundir os seus negócios de downstream na Península Ibérica, através da criação de duas novas empresas: a RetailCo, dedicada ao retalho de combustíveis, à mobilidade eléctrica e ao comércio de conveniência — ou seja, bombas de gasolina e estações de serviço conexas —, e a IndustrialCo, focada em refinação, petroquímica, trading e combustíveis de baixo carbono — na prática, refinarias e vendas por grosso.
A RetailCo será controlada conjuntamente pelas partes (50% cada) e contará com cerca de 3500 estações de serviço.
A IndustrialCo reunirá os activos industriais de refinação (refinarias), petroquímica e combustíveis verdes, procurando criar uma plataforma capaz de atrair investimento e liderar a transformação energética regional. A Galp deverá manter uma participação superior a 20% nesta empresa.
A primeira pergunta que se coloca em relação a Angola prende-se com o papel da Sonangol nesta operação. A Sonangol foi ouvida? Já se pronunciou?
Recorde-se que a Sonangol é uma das maiores accionistas da empresa portuguesa (Galp), com cerca de 17%, embora por via indirecta e subordinada à família portuguesa Amorim (um arranjo que nunca foi bem explicado).
Apresentada aos mercados financeiros como uma operação de eficiência, criação de valor e aceleração da transição energética, a transacção parece irrepreensível aos olhos dos analistas.
Porém, quando observada a partir dos interesses estratégicos angolanos, o seu significado é muito diferente: representa mais um passo na erosão da capacidade de influência de Angola nos centros de decisão energética europeus.
Na realidade, trata-se de uma transferência de poder. A actividade de refinação, historicamente associada a infra-estruturas estratégicas e à segurança energética dos Estados, passa progressivamente para a esfera de influência de fundos internacionais cuja prioridade é a maximização do retorno financeiro.
Refira-se que os detentores da Moeve, que passarão a controlar a refinaria portuguesa e a petroquímica, bem como o trading, são a Mubadala Investment Company, um fundo soberano de investimento do Governo de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Trata-se de um dos principais veículos de investimento estratégico do emirado. Por sua vez, o Carlyle Group é uma multinacional norte-americana especializada em capital de investimento (private equity), gestão de activos alternativos e serviços financeiros. Em 2023, geria cerca de 426 mil milhões de dólares em activos, estando entre as maiores gestoras de investimento do mundo.
Estas entidades não têm nenhum compromisso especial com os interesses de Angola ou de Portugal. A sua lógica é financeira, não geopolítica. O objectivo é maximizar retornos, optimizar activos e gerar dividendos para os seus investidores.
O resultado é uma dupla perda de influência estratégica. Angola assiste ao desaparecimento gradual de um dos poucos instrumentos económicos através dos quais projectava influência política e empresarial na Europa. Portugal vê enfraquecer o controlo nacional sobre a refinaria de Sines e o sector petroquímico.
Para Luanda, a questão é ainda mais relevante, porque a operação evidencia uma tendência preocupante que se verifica há vários anos: a dissolução progressiva da posição angolana na Galp. A participação articulada entre a Sonangol e a família Amorim constituiu uma das principais alavancas de influência externa de Angola. Não se tratava apenas de uma participação financeira. Através da Galp, Angola detinha uma presença relevante num dos sectores estratégicos da economia portuguesa e mantinha capacidade de influência indirecta sobre decisões económicas de importância regional.
Contudo, essa posição foi sendo progressivamente reduzida devido a uma conjugação de passividade estratégica, ausência de visão de longo prazo e uma estranha aceitação, por parte da Sonangol, da primazia dos interesses da família Amorim.
Poucos Estados produtores de petróleo aceitariam que um activo com relevância geopolítica fosse gerido durante décadas segundo uma lógica em que os interesses nacionais do Estado accionista permanecem subordinados aos interesses de uma família empresarial estrangeira.
A actual fusão representa o culminar desse processo. Ao transferir os activos industriais para uma nova estrutura dominada pela Moeve e pelos seus accionistas, a influência anteriormente exercida através da Galp torna-se ainda mais difusa. Na prática, Angola deixa de ter ligação relevante a infra-estruturas industriais críticas da Península Ibérica. O que resta é uma participação financeira numa empresa cotada, cuja estratégia futura será determinada por critérios globais de rentabilidade e não por qualquer consideração geopolítica relacionada com Angola.
Os defensores da operação argumentam que a libertação de capital permitirá à Galp reforçar os investimentos no upstream e regressar a Angola. Esta tese assenta, contudo, numa premissa extremamente frágil. Não existe nenhuma garantia de que os recursos libertados sejam investidos no sector petrolífero angolano. Pelo contrário, os sinais mais evidentes apontam para uma concentração crescente dos investimentos da empresa noutras geografias consideradas mais atractivas.
A Namíbia surge hoje como a principal prioridade estratégica da Galp, impulsionada pelas descobertas de Mopane. Paralelamente, o pré-sal brasileiro continua a oferecer oportunidades de grande escala e elevada rentabilidade. Neste contexto, Angola compete por capital com mercados que apresentam perspectivas mais atractivas para os investidores internacionais. As decisões da Galp serão tomadas em função dessas oportunidades e não por razões históricas ou políticas.
A questão central para Angola não é, portanto, a eficiência da operação nem a racionalidade empresarial da Galp. A questão é a incapacidade da Sonangol para definir e defender uma visão estratégica de longo prazo.
O que impressiona não é apenas a perda gradual de influência, mas a aparente ausência de resistência perante essa perda. A dormência estratégica que tem caracterizado a gestão desta participação permitiu que um dos mais importantes activos externos de Angola fosse progressivamente esvaziado, sem que surgisse uma alternativa clara de projecção económica internacional.
Entretanto, o governo português já se pronunciou, afirmando que está disposto a “permitir que a Galp avance com uma fusão dos negócios ibéricos de refinação e postos de abastecimento com a espanhola Moeve, desde que o acordo salvaguarde a importância estratégica da única refinaria de petróleo do país”.. São meras boas intenções sem conteúdo.
Em contrapartida, nem o governo angolano, nem a Sonangol se pronunciaram publicamente sobre esta fusão. Não sabem do acordo? Não têm posição? Estão a dormir? A médio e a longo prazo, Angola vai descobrir que perdeu uma refinaria e uma participação industrial, que eram um dos últimos instrumentos relevantes da sua presença estratégica na Europa, sem ter construído nenhuma alternativa. Esse será, provavelmente, o verdadeiro custo desta operação.
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