Mabor prepara a despedida com a alienação da fábrica

O Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE) colocou à venda, através de leilão electrónico, o complexo industrial da antiga Mabor, no Cazenga, com um preço base de licitação de 6,5 mil milhões de kwanzas. O activo, com uma área de 63.951 metros quadrados, será adjudicado ao concorrente que apresentar o maior lance, desde que igual ou superior ao valor base.
O pagamento será efectuado em duas fases, com 80% do montante na assinatura do contrato-promessa de compra e venda e os restantes 20% no prazo máximo de três meses, mediante garantia bancária. As candidaturas decorrem até 22 de Agosto, estando a sessão de licitação electrónica marcada para 31 de Agosto, entre as 09h00 e as 15h00.
A antiga fábrica da Mabor - Manufactura Ang olana de Borracha, localizada no município do Cazenga, em Luanda, foi um dos mais importantes projectos industriais de Angola durante o período colonial e, durante muitos anos, uma referência da indústria transformadora do País. O impacto foi tão grande que acabou por dar o nome ao bairro onde se instalou, ainda hoje conhecido como Bairro da Mabor. A fábrica foi criada na década de 1960 como uma filial da Mabor portuguesa, fabricante de pneus fundada em 1940.
O objectivo era produzir pneus localmente para abastecer o mercado angolano, reduzindo os custos de transporte e a dependência das importações. E m vez d e i m po r t a r pn e u s completos, passava-se a importar apenas a borracha natural, os produtos químicos e outros componentes necessários à produção.
Em 1965, a administração portuguesa concedeu à empresa um direito exclusivo de fabrico de pneus e câmaras-de-ar para automóveis durante dez anos, proibindo a importação dos modelos produzidos em Luanda, desde que a fábrica conseguisse satisfazer a procura, garantindo padrões mínimos de qualidade. Essa protecção foi decisiva para a viabilidade económica do investimento. Durante os anos 60 e início dos anos 70, a Mabor foi considerada uma das mais modernas unidades industriais do País e uma das maiores fábricas de pneus da África Austral. Chegou a empregar centenas de trabalhadores, entre operários, técnicos e engenheiros, muitos deles com formação especializada.
A queda do gigante
Depois da independência, ao contrário do que aconteceu com algumas indústrias que encerraram quase de imediato, a Mabor ainda conseguiu manter actividade durante vários anos. A produção foi diminuindo progressivamente ao longo da década de 1980. Apesar de terem existido tentativas para manter a fábrica operacional, a irregularidade no fornecimento de borracha, aço e produtos químicos, aliada à crescente obsolescência tecnológica, tornou cada vez mais difícil competir com os pneus importados. Já nos anos 1990, a actividade industrial era reduzida e acabaria por cessar definitivamente em 1995.
Paradoxalmente, a empresa sobreviveu muito mais tempo do que a fábrica. Durante cerca de três décadas, a Mabor continuou a existir juridicamente, embora praticamente sem actividade industrial ou comercial relevante. Na prática, transformou-se numa sociedade pública cuja principal função era conservar um património composto pelo terreno, edifícios e equipamentos, entretanto ultrapassados pelo tempo. Ao longo destes anos foram várias as hipóteses de recuperação. Chegou a falar-se da entrada de parceiros internacionais, de investidores chineses, de processos de privatização e até da reactivação da produção nacional de pneus. Nenhum desses projectos avançou.
A dimensão do investimento necessário, a degradação das instalações e a concorrência dos produtos importados acabaram por retirar viabilidade económica a qualquer tentativa de reindustrialização. Foi este diagnóstico que levou o Executivo a aprovar, em 2023, a dissolução e liquidação da sociedade, reconhecendo formalmente que a empresa já não reunia condições para cumprir o objecto social para o qual tinha sido criada. A decisão encerrou um longo período em que a Mabor existia mais como memória da industrialização angolana do que como unidade produtiva. O processo entra agora na sua fase final com a alienação do complexo industrial.


