Petróleo: Trump diz que o Estreito está aberto, os iranianos garantem que Ormuz está fechado e os mercados petrolíferos já tiveram melhores dias

O petróleo, não apenas o Brent, em Londres, também a outra referência central, o WTI, em Nova Iorque, manteve-se quase inalterado, ligado de perto por cêntimos no valor comercial do barril a três meses.
E a razão é simples de perceber: o Presidente dos EUA garante que o Estreito de Ormuz está aberto à navegação geral, em Teerão, dizem que em Ormuz mandam os que lá estão, que são os iranianos, afogando em dúvidas os traders que fazem mover os gráficos.
Olhando para o Estreito de Ormuz a partir do site MarineTraffic, que mede ao minuto o trânsito marítimo global, no canal que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, os sinais visíveis apontam para que os iranianos estejam a levar a sua vontade avante.
Mas nada é o que parece neste mundo da navegação marítima comercial, porque os sites que vigiam os mares só têm acesso aos navios que mantém os seus localizadores ligados, o que, em síntese, o Estreito de Ormuz pode estar neste momento congestionado de petroleiros "invisíveis", como Trump afirma.
Só que esta possibilidade não tem velas para navegar no mar alto do negócio global da energia, porque os iranianos garantem que por Ormuz só passam embarcações por si autorizadas e na rota previamente estabelecida, sob risco de ataque com mísseis ou drones, aéreos ou aquáticos.
As imagens que se repetem de navios a arder no Golfo Pérsico ou as praias da região inundadas de petróleo em bruto, derramado por petroleiros que arriscaram, ou acreditaram em Trump, atacados pelo Irão.
Tudo para ficar claro que um analista dos mercados sentado à frente do seu ecrã, seja em Londres, em Nova Iorque ou em Luanda, não tem como ler a realidade ao minuto sem correr riscos de estar a olhar para uma obra de ficção.
E é por isso que o barril de crude não se mexe há pelo menos três dias nos gráficos que indicam a sua valorização e desvalorização diárias, mantendo-se, como nesta quarta-feira, 12, perto das 11:30, hora de Luanda, nos 88, 4 USD, com uma perda ligeiríssima de 0,05%, tendo começado a semana nos 88,2 USD, tendo, porém, já andado a navegar pelos 89 USD na terça-feira, 11.
Nas explicações oficiais, como se pode ler nos sites especializados, a questão é que não há meio de as negociações entre Irão e Omã, para definir rotas de trãnsito seguro por Ormuz, chegarem ao fim, e nem sequer se pode antecipar se Trump vai ou não aceitar que sejam os iranianos a definir as regras e a gestão desta estratégica via marítima para a economia mundial.
Isto, quando a guerra começada pela coligação israelo-americana a 28 de Fevereiro está actualmente numa pausa mas em permanente suspense imposto pelo "realizador" Dionad J. Trump, que intermedeia ameaças de novos ataques com declarações de que vai dar espaço para que as negociações assumam o protagonismo.
Enquanto a incerteza parece ter lançado âncora á entrada do Golfo Pérsico, ali permanece a dúvida sobre como é que os mercados podem estar tão sossegados quando mais de 15 milhões de barris de crude e 20% do gás mundial permanecem "arrolhados" pelo Estreito.
É que noutras alturas, onde não existia como existe hoje a certeza de que as reservas estratégicas de países como os EUA estão em níveis historicamente baixos, remetendo para situação unicamente vista em 1983, com pouco mais de 300 milhões de barris quando normalmente são mais de 600 milhões, o petróleo disparou para valores recorde, como os 147 USD de Junho de 2008.
Este fenómeno, que ocupa cada vez mais analistas, porque ninguém percebe como é que o barril não dispara como sucedeu no passado, terá de ceder mais dia menos dia... e é por isso que países exportadores, como Angola, e economia dependentes da matéria-prima, como Angola, não tiram os olhos dos mercados.
Angola soma ganhos, mas..
O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara ainda com os actuais 88, 5 USD, no caso do Brent, cerca de 27 USD acima desse valor.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.


