O sindicadores macroeconómicos de Angola, África do Sul, Nigéria, Estados Unidos, Portugal e China, quando lidos em conjunto, desenham um retrato muito nítido do momento em que se encontra a economia global: os mercados emergentes africanos vivem um dos seus melhores anos em Bolsa, sustentados por reformas estruturais e apetite renovado por dívida e capital local, enquanto os mercados desenvolvidos navegam entre a euforia de Inteligência Artificial e o nervosismo em torno da Política Monetária. Entre estes dois pólos, Angola surge com uma economia em transição, ao crescer e com uma inflação em desaceleração para um dígito, mas ainda a lidar com pressões cambiais relevantes.
ANGOLA: CRESCIMENTO COM PRESSÃO CAMBIAL E UM MERCADO DE CAPITAIS EM MATURAÇÃO
O Kwanza mantém-se sob pressão, face ao dólar (912,792 USD/AOA), reflexo de uma economia muito dependente das exportações de petróleo e da procura por divisas para importações. A inflação homóloga, em um dígito (9,33%), e uma taxa de juro de referência também em desaceleração, embora ainda elevada (15,75%), traduzem o esforço do Banco Nacional de Angola em ancorar expectativas de preços, num contexto em que o crescimento do PIB no I trimestre de 2026 (+5,32%) surpreende pela força, impulsionado pelos sectores da actividade Económica Não Petrolífera, nomeadamente: Pescas e Aquicultura (8,73%), Produtos da Indústria Transformadora (7,32%), Transportes e Armazenagem (+16,12%) e Produção de Electricidade, Água e Saneamento (+8,15%) o que representa uma recuperação da oferta interna de produtos. O desemprego, ainda assim, permanece elevado (21,3%) até ao I trimestre do mesmo ano, um lembrete de que o crescimento económico não se tem traduzido, na mesma proporção, em criação de emprego.
De acordo com a Lei de Okun, desenvolvida pelo economista Arthur Okun, em 1962, que estabelece uma relação inversamente proporcional entre o crescimento económico e a taxa de desemprego, ou seja, Okun presenciou que, quando o Produto Interno Bruto (PIB) crescia em 1 ponto percentual, a taxa de desemprego experienciada decrescia em 0,3 pontos percentuais (Foroni e Furlanetto, 2022). Desta feita, para a economia angolana, entre o período do II trimestre de 2019 ao I trimestre de 2026, constatou-se que uma variação positiva de 1% registada no PIB, em média, a taxa de desemprego decresce em 0,13 pontos percentuais sem qualquer efeito estatístico.
Foi também comprovado que somente cerca de 4,95% das variações da taxa de desemprego, em Angola, foram explicadas pelas variações registadas no crescimento do PIB real. Em outras palavras, um aumento da taxa de crescimento do PIB real tende a produzir efeitos relativamente limitados sobre a redução do desemprego, o que pode estar associado, entre outros factores, ao desfasamento entre a elevada oferta de mão-de-obra, representada pelo número de indivíduos que procuram emprego, e a limitada capacidade de absorção dessa mão-de-obra por parte do sector Empresarial. Este cenário sugere a existência de um crescimento económico com reduzida capacidade de geração de emprego, particularmente em magnitude suficiente para acompanhar o crescimento da força de trabalho.
Do lado do Mercado de Capitais, a história é claramente positiva: a BODIVA tem vindo a consolidar-se como um dos mercados de crescimento mais rápido da África Subsaariana, com um salto expressivo no número de transacções e no volume negociado em 2025, e recorde histórico de negociação numa única sessão no mercado primário. O número de contas activas continua a crescer a bom ritmo, sinal de uma base de investidores locais em expansão, ainda que o mercado continue fortemente concentrado em Dívida Pública, com o Estado a deter a maior fatia dos títulos em depósito. O horizonte de privatizações por via de Bolsa (incluindo participações na própria BODIVA) reforça a narrativa de aprofundamento do Mercado de Capitais angolano (Conforme a Tabela 1).
ÁFRICA DO SUL: RECORDES NA BOLSA, MAS UM RAND SENSÍVEL A CHOQUES EXTERNOS
A economia sul-africana mostra sinais mistos: inflação controlada (5%), taxa de juro em 7% e um crescimento trimestral modesto (+0,5%), num contexto de desemprego estrutural muito elevado (32,7%) que continua a ser o maior desafio de Política Económica do país. O rand (USD/ZAR 16,22) tem oscilado significativamente ao longo de 2026, penalizado em momentos de tensão geopolítica e de incerteza sobre a política da Reserva Federal norte-americana.
A Bolsa de Joanesburgo (JSE), a maior de África, viveu um ano de contrastes: depois de atingir máximos históricos acima dos 126 mil pontos, chegou a registar quebras acentuadas, mais de 2 biliões de rands foram apagados numa única semana, em Março, em plena escalada do conflito no Médio Oriente, e voltou a perder terreno em Maio por ansiedade em torno de decisões da Fed. Ainda assim, o sentimento dos gestores de fundos sul-africanos mantém-se globalmente optimista em relação às acções locais, e o desempenho de sectores como Industrial, Financeiro e Retalho tem compensado a fraqueza pontual das mineradoras de ouro.
NIGÉRIA: O MERCADO ACCIONISTA MAIS FORTE DE ÁFRICA EM 2026
A Nigéria combina uma inflação ainda elevada (15,91%) e uma taxa de juro muito restritiva (26,5%) com um crescimento robusto (+3,89%) e notavelmente a taxa de desemprego mais baixa da amostra (3,06%), número que deve, porém, ser lido com cautela, dado o peso do sector Informal na economia nigeriana. A naira (USD/NGN 1362,62) estabilizou-se relativamente após anos de forte desvalorização.
É, no entanto, na Bolsa (NGX) que a Nigéria se destaca claramente: o Índice All-Share Index tem estado numa trajectória de máximos históricos sucessivos ao longo de 2026, ultrapassando a barreira dos 245 mil pontos, com a capitalização bolsista a superar os 158 biliões de nairas. Este retorno tem sido sustentado pelos sectores Bancário (em pleno processo de recapitalização), Petrolífero, de Telecomunicações e Industrial, com a MTN Nigéria a atingir máximos históricos e vários bancos a liderar os ganhos semanais. É importante notar, contudo, que estes retornos são medidos em naira, investidores internacionais precisam ajustar os números à depreciação cambial acumulada para comparar com outros mercados.
ESTADOS UNIDOS: ENTRE RESULTADOS ROBUSTOS E ANSIEDADE EM TORNO DE IA E DA FED
A maior economia do mundo mostra uma inflação ainda acima da meta (3,7%), juros mantidos entre 3,50% e 3,75% pela Reserva Federal, crescimento moderado no segundo trimestre (+1,5%) e desemprego contido (4,2%). O sentimento nos mercados accionistas tem sido claramente dominado pela tensão entre o entusiasmo com a Inteligência Artificial e o receio de uma correcção: o S&P 500 chegou a negociar perto dos seus mínimos do último mês, e o nasdaq recuou cerca de 9%, face aos máximos históricos de Junho, penalizado pela reavaliação dos elevadíssimos investimentos em infra-estrutura de IA por parte de gigantes como Meta e Microsoft.
A decisão mais recente da Fed de manter as taxas inalteradas, com três membros do Comité a defenderem uma subida, ilustra a divisão interna sobre o rumo da Política Monetária, numa altura em que a inflação persistente, e as tensões geopolíticas (incluindo o conflito no Médio Oriente e o seu impacto no preço do petróleo) continuam a complicar o cenário. Ainda assim, resultados corporativos sólidos, como os da Microsoft, que voltou a superar as expectativas de receita na nuvem, mantêm muitos analistas optimistas quanto ao potencial de recuperação do mercado a médio prazo.
PORTUGAL: A BOLSA NACIONAL EM MÁXIMOS HISTÓRICOS
Portugal apresenta um quadro macroeconómico estável, com inflação em linha com a média da Zona Euro (3,1%), juros mais baixos (2,4%, reflectindo a política do BCE), crescimento moderado (+0,8% no segundo trimestre) e um desemprego relativamente contido (5,6%). O euro mantém-se robusto, face ao dólar (EUR/USD: 1.1540).
O destaque vai para o PSI, que tem negociado em níveis recorde, muito acima dos 9.000 pontos, o valor mais alto desde a criação do índice, em 1992, quando partiu de uma base de 3.000 pontos. Este desempenho acompanha, de forma mais discreta, o optimismo que se tem visto nos mercados europeus e reflecte a resiliência das principais cotadas nacionais, incluindo boas surpresas a nível de resultados trimestrais em empresas como a NOS.
CHINA: ENTRE ESTÍMULO ESPERADO E NERVOSISMO COM A DESACELERAÇÃO
A China mantém uma inflação muito baixa (1%), juros reduzidos (3%) e um crescimento trimestral modesto (+0,9%), reflexo de um dos ritmos de expansão mais lentos das últimas décadas. O yuan (USD/CNY: 6,75) tem-se mantido relativamente estável, face ao dólar.
Os mercados accionistas chineses vivem um ano de fortes oscilações, depois de um início de 2026 excepcional, com o Xangai Composto a somar o melhor desempenho anual desde 2020, o índice tem alternado entre recuperações ligadas ao entusiasmo tecnológico e da Inteligência Artificial e quedas associadas a dados económicos mais fracos (incluindo um PMI industrial em contracção) e à escalada de tensões geopolíticas internacionais, nomeadamente a subida do preço do petróleo. O mercado continua muito atento aos sinais de Pequim quanto a novos estímulos fiscais e monetários, com particular expectativa em torno das reuniões do Politburo, e o interesse de investidores estrangeiros por acções chinesas tem mostrado sinais de recuperação, nomeadamente através do forte volume de novas cotações, em Hong Kong.
UMA LEITURA TRANSVERSAL
O que estes seis mercados têm em comum, apesar das diferenças estruturais evidentes, é a sensibilidade partilhada a três factores globais: a trajectória da Política Monetária norte-americana (que continua a ditar os fluxos de capital para mercados emergentes como Angola, África do Sul e Nigéria), o preço do petróleo e a tensão geopolítica no Médio Oriente (que afecta tanto economias exportadoras de crude, como Angola e Nigéria, quanto importadoras, como Portugal e China), e o apetite, ou aversão, são um risco ligado à narrativa da Inteligência Artificial, que tem sido o principal motor de volatilidade nos mercados accionistas dos EUA e, por contágio, da China.
Em termos de sentimento, há um contraste interessante entre mercados de fronteira e emergentes (Nigéria, Angola, e em boa medida Portugal), que atravessam fases de forte optimismo e máximos históricos nas respectivas Bolsas, e os grandes mercados desenvolvidos e a China, mais expostos à volatilidade de curto prazo gerada por decisões de Bancos Centrais e por reavaliações bruscas de sectores Tecnológicos sobrevalorizados. No caso de Angola, o principal desafio continua a consistir em transformar o crescimento macroeconómico e a evolução ainda incipiente do Mercado de Capitais em melhorias mais concretas e perceptíveis nas condições de vida da população, nomeadamente através da criação de emprego, do aumento do poder de compra e de uma distribuição mais abrangente dos benefícios do crescimento económico. &



