
Fundada em julho de 2001 em Mumbai, na Índia, a VFS Global tem hoje sede em Dubai e em Zurique  e tornou-se num dos intermediários mais poderosos do mundo.
Com mais de 3.400 centros de atendimento espalhados por 153 países e cerca de 17.000 funcionários de 131 nacionalidades,  a empresa presta serviços administrativos a governos em tudo o que vai desde passaportes a consulados. Agora, uma investigação jornalística coloca as suas práticas sob escrutínio.
A investigação O Império dos Vistos: Fronteiras como Negócio, conduzida pela Lighthouse Reports em parceria com várias organizações de média, analisou mais de 2.000 comprovativos de pedidos de visto recolhidos em 16 países.
As conclusões apontam para um modelo em que os requerentes são sistematicamente expostos a serviços adicionais — salas VIP, entrega de documentos por correio, notificações por SMS — que geram receitas avultadas para a empresa, para além das taxas obrigatórias de visto. A própria Lighthouse Reports reconhece os limites da sua análise: não foi possível determinar com certeza se esses serviços são adquiridos voluntariamente ou sob pressão implícita.
Em Angola, a VFS Global presta serviços administrativos aos consulados de Portugal, do Brasil, da Holanda, da China e, desde Novembro de 2024, do Reino Unido. As queixas concentram-se sobretudo nos agendamentos.
Desde 2024 acumulam-se denúncias sobre a inoperância da plataforma da VFS Global, obrigando os requerentes a pagar a intermediários para conseguir uma vaga.  Estes intermediários, conhecidos localmente como “mixeiros”, transformaram um serviço gratuito num negócio paralelo. Os valores cobrados chegam a atingir entre 700 mil e 1,1 milhões de kwanzas por um simples agendamento.
 O próprio Governo português reconheceu o problema, admitindo que a plataforma estava a ser capturada por “açambarcadores” que recorrem a bots para bloquear automaticamente um grande número de vagas, com grande prejuízo para os utentes. 
A VFS Global rejeita as conclusões da investigação, classificando a narrativa como “distorcida”. Afirma que todos os serviços adicionais são opcionais, aprovados pelos governos parceiros e com preços transparentes, e que a sua aquisição não influencia o resultado nem o prazo dos pedidos de visto.
Quanto aos problemas de agendamento, garante utilizar mecanismos de segurança para evitar abusos e sublinha que a disponibilidade de vagas é determinada exclusivamente pelos governos clientes. “Não existe agendamento premium”, declarou em resposta formal.
Nenhuma das partes apresentou provas de que decisões sobre vistos foram influenciadas por pagamentos adicionais. Mas a questão mais funda permanece: até que ponto é legítimo transformar o acesso a um direito, o de pedir um visto, num mercado gerido por uma empresa privada com fins lucrativos?


