Israel Campos critica funcionamento do Arquivo Histórico Nacional e faz desabafo: -“Monstro cheio de nada”

O jornalista angolano Israel Campos, partilhou nesta quinta-feira, 07 de Agosto, uma experiência frustrante no Arquivo Histórico Nacional, ao denunciar as falhas operacionais e estruturais que considera simbólicas do estado actual das instituições públicas em Angola.
Em um texto longo partilhado no seu perfil da rede social, Instagram, Israel aponta as burocracias desnecessárias, falta de acesso aos documentos solicitados e restrições inexplicáveis, como a proibição de fotografar páginas, substituída pelo pagamento de 300 kwanzas por cada digitalização.
Campos, também relata desorganização interna, com documentos “ainda em processamento” mesmo após quase cinco anos da inauguração e má prestação de serviço por parte dos funcionários, que se recusaram a aceitar requisições a partir das 13h40, apesar do expediente público se estender até às 15h00.
“Quase cinco anos após a sua inauguração, com a devida pompa e circunstância, o Arquivo Histórico Nacional constitui uma metáfora ideal para o marasmo em que o país se encontra. Ter decidido dedicar parte do meu dia à pesquisa e investigação neste Arquivo foi certamente a pior decisão que tomei no dia de hoje. Para além de ter que lidar com uma burocracia incompreensivelmente absurda, como uma regra interna que impede que se fotografarem os documentos e livros (exigindo que sejam pagos 300 kwanzas para scanear cada página), tive que lidar com a incapacidade de serem localizados os livros e documentos que solicitei, ora porque “não conseguimos localizar”, ora porque “o arquivo é novo e ainda estamos a processar os documentos. Para piorar, só mesmo a pressa dos funcionários de se despacharem para irem embora mais cedo – recusando requisições feitas as 13:40, sendo que o funcionamento das instituições públicas em Angola se estende até às 15 horas.
De forma crítica, o jornalista afirma que o Arquivo representa uma “metáfora ideal para o marasmo em que o país se encontra”, e questiona a retórica política que apregoa investimentos na educação e investigação científica:
“O Arquivo Histórico, este ‘monstro cheio de nada’, como várias das nossas instituições publicas, vive o mesmo dilema que o próprio país: o de ser e não ser; o de ser, de facto, e o de parecer ser. No final, foram quase três horas de nada: não consegui consultar nenhum documento relevante nem avançar com nenhuma pesquisa. Quando comentei, há algumas horas, o episódio com uma amiga, da Cultura, ela disse que tinha que ter avisado mais cedo para que fosse ‘agilizado’ algum “contacto” e, aí sim, conseguiria tratar daquilo o que precisava. trágico desse comentário, que é o nosso pão de cada dia, é que não se trata de uma cunha 17 para um crédito habitacional, incluir o nome em uma lista de concurso público ou coisas dessa natureza – estamos a falar de uma suposta cunha para ‘agilizar’ um atendimento público que devia ser normal a todos os utentes. Tudo isto uma grande ironia num país em que ouvimos, quase que diariamente, os governantes do país falarem sobre a importância da educação para o futuro dos jovens, alegados investimentos para fomentar a investigação científica e questionamentos, irónicos, sobre o porquê das falências do nosso ensino superior. No final, só me ocorre mesmo pensar que continua a existir um equívoco muito grande na retórica política angolana que confunde: grande com eficiente, poder com competência, falar com fazer”.
Ao finalizar, Israel Campos, faz outra crítica à normalização da “cunha”, inclusive em ambientes de acesso à informação e pesquisa, o que, segundo o autor, expõe as contradições entre o discurso oficial e a realidade vivida pelos cidadãos.



