"O que me move é que a produção de pensamento crítico não fique confinada às gavetas da academia"

Esteve na Grécia, a participar no 64.º Congresso Mundial de Investigação em Dança do CID-UNESCO. Representou Angola ou o continente africano neste evento?
A minha presença no fórum global, que decorreu de 1 a 5 de Julho, carrega a responsabilidade de representar o continente africano, uma vez que a nossa delegação é a única força de investigação activa de África nesta edição. A minha agenda de trabalho e engajamento com os decisores e stakeholders do CID- -UNESCO estender-se-á em Atenas até ao dia 9 de Julho. Durante uma das reuniões, o presidente Mundial do CID, Alkis Raftis, solicitou o meu apoio pessoal e institucional para expandir a divulgação da organização em solo angolano, visando atrair e validar novos membros no nosso País, e elevar a literacia científica do sector, porque, em termos institucionais e de identidade de pesquisa, a minha bandeira é, e será sempre, Angola.
O que significa para si este convite e que impacto terá na sua carreira?
Este convite representa a validação internacional de uma década de esforço intelectual contínuo que se traduz em autoridade e diplomacia científica. Tivemos a presença de 230 membros e o facto de o meu workshop ter uma lotação esgotada e ter sido destacado nas plataformas oficiais do CID demonstra que a ciência produzida em Angola tem qualidade de exportação e capacidade de ditar tendências no pensamento global por meio de eventos como este, que congrega mais de 8.000 membros individuais e 1.100 membros institucionais espalhados por mais de 170 países nos cinco continentes.
Quando começou a dedicar-se à investigação, à escrita académica e literária?
O que a motivou? Consolidei-me na investigação e na escrita há cerca de 10 anos, motivada por uma inquietação analítica enquanto cientista social: a necessidade premente de preencher lacunas na literatura sobre o desenvolvimento socioemocional e a produtividade em África. Entretanto, o que me move é a produção de pensamento crítico que não fique confinado às gavetas da academia, mas que se transforme em ferramentas práticas de emancipação social, literacia e saúde pública para as nossas comunidades.
Quantos livros já escreveu e qual a temática?
Tenho cinco livros escritos e três publicados. A minha produção literária e de ensaio foca-se nas dinâmicas das ciências sociais, no desenvolvimento comunitário, na preservação da memória cultural e na intersecção crítica entre a saúde mental nas organizações e as metodologias de intervenção através do movimento. Portanto, o objectivo central é dissecar de que forma o capital humano pode prosperar face às pressões estruturais da modernidade.
Desenvolveu um trabalho científico sobre burnout e dança terapêutica. O que a motivou? Como este trabalho culminou na publicação da Trilogia Ecos do Silêncio?
Foi a dupla natureza: empírica e clínica. Por um lado, os dados globais e nacionais já apontavam para uma epidemia silenciosa de esgotamento mental crónico no tecido empresarial. Por outro, a experiência pessoal de ter enfrentado o burnout na primeira pessoa deu-me a sensibilidade humana necessária para estudar a exaustão corporativa além dos gráficos frios. No entanto, quis provar cientificamente que as nossas matrizes culturais rítmicas e o movimento corporal estruturado possuem propriedades neuropsicológicas capazes de actuar na prevenção, mitigação e cura do stress laboral crónico. Após uma década de recolha de dados, observações e fundamentação teórica, dediquei nove meses intensivos ao alinhamento metodológico do material. O resultado desta compilação analítica é a Trilogia Ecos do Silêncio, materializada nas obras Visceral, Vísceras e Wesungi. Portanto, fiz história neste congresso mundial porque, habitualmente, os investigadores submetem artigos isolados e Angola apresentou-se com três obras científicas e literárias integradas de uma só vez....



