O ataque aéreo que terá provocado a morte de pelo menos 72 mineiros numa zona de exploração de ouro junto à fronteira entre o Sudão e o Egipto está a aumentar as tensões entre os dois países, numa região marcada por disputas territoriais, mineração informal e contrabando.
Segundo a organização sudanesa de direitos humanos Emergency Lawyers, o bombardeamento ocorreu em Jabal al-Uqaydat, uma extensa área montanhosa de mineração de ouro, e terá sido realizado pela força aérea egípcia. A informação não foi confirmada de forma independente, e as autoridades egípcias não assumiram directamente a responsabilidade pelo ataque.
O incidente levou o líder de facto do Sudão, Abdel Fattah al-Burhan, a ordenar a criação de uma comissão de investigação, integrada por representantes do Ministério Público, autoridades judiciais e responsáveis da segurança, para apurar as circunstâncias do ataque e apresentar um relatório com as conclusões.
A tensão é agravada pelo facto de a região integrar uma zona fronteiriça cuja delimitação e soberania são contestadas. A proximidade de áreas ricas em recursos minerais, incluindo o ouro, tem contribuído para disputas e operações de segurança ao longo da fronteira entre os dois países.
Entretanto, os militares egípcios anunciaram uma campanha contra a mineração ilegal de ouro nas proximidades da fronteira, alegando a necessidade de proteger os recursos do Estado e assegurar a soberania egípcia. As autoridades afirmaram que foram distribuídos panfletos de advertência antes da operação, mas não esclareceram directamente se esta esteve relacionada com o ataque denunciado pelos mineiros.
Sobreviventes relataram que uma aeronave sobrevoou várias vezes a área antes de atingir o local onde trabalhavam centenas de pessoas. Um dos mineiros feridos afirmou ter perdido familiares na explosão, enquanto outros trabalhadores terão sido mortos ou soterrados.
O episódio reacende preocupações sobre a segurança dos civis que recorrem à mineração informal para sobreviver à crise económica provocada pela guerra no Sudão, iniciada em Abril de 2023. Com a destruição de meios de subsistência e o fracasso de actividades agrícolas em várias zonas, milhares de pessoas passaram a depender da exploração de ouro como fonte de rendimento.
Este é o segundo ataque reportado este ano na mesma região. Em Junho, bombardeamentos alegadamente atribuídos ao Egipto terão causado a morte de 23 trabalhadores numa mina informal. Na ocasião, os militares egípcios anunciaram uma operação de grande escala contra a mineração ilegal dentro do que consideram ser o seu território.
Apesar do incidente, os canais diplomáticos entre Cartum e Cairo continuam activos. Numa conversa telefónica com o homólogo sudanês, o ministro dos Negócios Estrangeiros egípcio, Badr Abdelatty, destacou o respeito mútuo pela soberania, integridade territorial e segurança das fronteiras dos dois Estados.
A investigação deverá ajudar a esclarecer as circunstâncias do ataque e a responsabilidade pela operação, num contexto em que os dois países procuram preservar as relações bilaterais, apesar das tensões em torno da segurança fronteiriça e do controlo dos recursos naturais.




