Marcas africanas desafiam exportação de matéria-prima e apostam no processamento de manteiga de karité

A manteiga de karité, um ingrediente altamente valorizado na indústria cosmética global e na culinária da África Ocidental, está no centro de uma nova dinâmica de industrialização no continente africano. Historicamente exportada como matéria-prima bruta para ser processada na Europa e na América do Norte, a planta começa agora a ser transformada localmente por marcas africanas que procuram reter o valor económico na região. Esta mudança visa combater o paradoxo de o continente ser o único produtor mundial do fruto, mas deter uma percentagem insignificante do valor de mercado final dos produtos refinados.
Inspirada pela ausência de produtos de cuidado da pele de origem africana e refinados nas prateleiras locais, a empresária Valerie Obaze fundou a R&R Skincare em 2010. Sediada em Acra, no Gana, a empresa de cosméticos de luxo utiliza ingredientes de origem africana, com destaque para a manteiga de karité. Com lojas em Gana e na Nigéria, a marca já exporta para mercados internacionais como o Canadá, os Estados Unidos e o Reino Unido. Contudo, o percurso para estabelecer uma produção local robusta enfrenta desafios estruturais significativos, incluindo a falta de infraestruturas de manufactura e a escassez de profissionais qualificados no sector cosmético regional.
Para mitigar a fuga de receitas, governos de grandes produtores têm adoptado medidas proteccionistas. A Nigéria, responsável por cerca de 40% da colheita anual de karité, estendeu recentemente a proibição da exportação de nozes de karité em bruto, incentivando os fornecedores a investirem no processamento local de produtos refinados. O Gana prepara-se para implementar uma proibição semelhante. Estas políticas visam reverter o cenário actual, onde a Nigéria, apesar de ser o maior produtor mundial, representa apenas 1% do valor do mercado global deste sector, devido à falta de capacidade de refinação local.
O sector da manteiga de karité é tradicionalmente sustentado por mulheres, estimando-se que cerca de 16 milhões de mulheres colham e processem este fruto nas zonas rurais da África Ocidental. Conhecido localmente como “o ouro das mulheres”, o comércio tem o potencial de transformar comunidades inteiras. Iniciativas como o projecto de desenvolvimento social da R&R Skincare oferecem formação em negócios, saúde e segurança, além de infraestruturas básicas como água potável. No entanto, apesar do aumento de 600% no volume de exportações nas últimas duas décadas, muitas trabalhadoras continuam em situação de vulnerabilidade económica, exigindo uma distribuição de riqueza mais justa ao longo da cadeia de valor.
A exportação de cosméticos acabados a partir de África ainda enfrenta barreiras alfandegárias e regulatórias rigorosas. Devido à instabilidade natural dos ingredientes orgânicos, os testes laboratoriais realizados no continente muitas vezes não são reconhecidos internacionalmente, obrigando as marcas a enviar amostras para laboratórios europeus para obter certificações de segurança. Apesar destes entraves logísticos e dos elevados custos de transporte, o mercado de cuidados da pele no Médio Oriente e em África registou um crescimento assinalável, atingindo um valor estimado de 6,5 milhões de dólares em 2025. O sucesso contínuo destas marcas dependerá do investimento contínuo em branding, estabilidade energética e simplificação regulatória.


