Médio Oriente: Israel choca de frente com Trump em Gaza, um acidente preparado para "matar" os planos que deveriam acabar com a guerra no Golfo Pérsico

O líder do Governo em Telavive até diz que o Presidente norte-americano estava bem intencionado ao avançar, há cerca de uma semana, com um plano que propõe que Israel retire de Gaza por etapas e o Hamas entregue as armas.
Este plano foi de imediato aceite pelo Hamas, mas gerou reticências em Israel, onde os pequenos partidos radicais que sustentam o Governo de Netanyhau vieram logo dizer que a ideia de Donald Trump estava amputada de qualquer possibilidade de andar.
Ben Gvir, ministro da Segurança Nacional, e líder do radical Partido do Poder Judeu, e Bezalel Smotrich, do Partido Sionista Religioso, e ministro das Finanças, voltaram a ameaçar Benjamin Netanyhau com a queda do seu Executivo se a ideia de Trump avançar.
Não vai avançar. Porque o actual primeiro-ministro israelita e o seu partido, o Likud, dependem do apoio parlamentar daqueles dois pequenos partidos e as sondagens indicam um cenário em que a incerteza impera.
Todas as sondagens para as eleições de 27 de Outubro dizem que a oposição pode ganhar, embora por pequena margem, mas com maior certeza se Netanyhau perder o apoio daquelas duas forças radicais tanto politicamente como no campo religioso.
Essa a razão para Benjamin Netanyhau ter agora desafiado de forma rugosa o seu maior aliado, os EUA, ao contrariar Donald Trump, que já tinha anunciado o apoio do primeiro-ministro israelita ao seu plano de paz para Gaza.
A reacção de Donald Trump ainda não era conhecida nesta manhã de segunda-feira, 10, mas há um dado relevante para conferir razoabilidade política à posição de Netanyhau: Os EUA nunca se posicionaram contra Israel, em nenhuma circunstância, nas últimas décadas, acabando sempre por ser Washington a ceder, pelo menos publicamente.
É que em Washington e no Capitólio, o edifício do Congresso norte-americano, há uma regra de ouro que há muito não é desafiada com sucesso: o lobby judeu nunca perdeu um combate no xadrez da influência que se joga nos corredores do poder da maior potência militar e económica do mundo.
Todavia, com esta rejeição por Israel do plano de 15 pontos que Donald Trump anunciou a 30 de Julho, Telavive não está apenas a dar uma machadada letal na paz em Gaza, onde desde Outubro de 2023 já morreram mais de 75 mil pessoas, mais de 200 mil feridos e poucos edifícios resistiram às bombas israelitas.
Benjamin Netanyhau está a terraplanar igualmente as poucas possibilidades de as negociações de paz entre EUA e o Irão, mesmo que intermediadas por terceiros, como o Paquistão, Catar, Turquia e Egipto, possam vingar.
É que os mesmos partidos radicais que estão a chantagear Netanyhau no contexto das eleições em Israel também já vieram garantir que a paz com o Irão não pode acontecer sem que os objectivos anunciados pelo próprio primeiro-ministro sejam alcançados.
Objectivos esses que Netanyhau definiu aquando do início da guerra com o Irão, a 28 de Fevereiro, com o ataque supresa pela coligação israelo-americana que matou o Supremo Líder, aiatola Ali Khamenei, e mais de 40 figuras de proa do regime entre militares e políticos.
Desde logo a mudança de regime em Teerão, decapitando a liderança actual, que quase foi conseguido em Fevereiro, eliminar o programa nuclear iraniano totalmente, incluindo a sua vertente civil, desmantelar por completo o seu programa de mísseis balísticos e cortar as ligações entre Teerão e os seus aliados na região, como os Houthis, no Iémen, o Hezbolah, no Líbano, as milícias xiitas no Iraque...
Nenhum destes objectivos foi conseguido minimamente. O que levou, como o Novo Jornal tem vindo a noticiar, Trump e Netanyhau a mudar a sua retórica de guerra para a ideia de querer com o conflito vigente abrir o Estreito de Ormuz e garantir que o Irão não adquire capacidade militar nuclear.
Estes dois objectivos não apenas são uma possibilidade real como antes desta guerra não se colocavam como questão, porque o Estreito de Ormuz, por onde os países do Golfo Pérsico escoam 20% do petróleo e do gás mundiais, estava aberto sem restrições.
E o programa nuclear do Irão é uma realidade que se se deve apenas a Donald Trump, que na sua primeira passagem pela Casa Branca, entre 2017 e 2021, retirou unilateralmente os EUA do Acordo Nuclear assinado com o Irão pelo seu antecessor, Barack Obama.
Nesse acordo, Plano Conjunto de Acção Alargado (JCPOA, na sigla em inglês), de 2015, Teerão aceitara manter a ONU a vigiar, através da Agência Internacional de Energia (AIE), todos os passos do enriquecimento de urânio no âmbito do seu programa nuclear civil.
Depois dessa saída intempestiva de Trump, no seu primeiro mandato, o Irão expulsou a AIE, retomou o enriquecimento de urânio em percentagens próximas do uso para fins militares, embora mantenham validade as fátuas (decretos religiosos de cumprimento obrigatória na República Islâmica do Irão) que impedem a obtenção de uma arma nuclear.
O que resultou no regresso da guerra, primeiro em Junho de 2025, com um ataque surpresa da coligação israelo-americana, embora com o ataque directo a ser protagonizado apenas por Israel, embora com logística americana, que visava decapitar o regime.
Nessa altura, com Trump a baptizá-lo de "guerra dos 12 dias", terminou com um ataque substantivo dos EUA a três áreas conhecidas do programa nuclear iraniano, com Donald Trump a fazer declarações triunfantes de que o programa nuclear iraniano estava totalmente destruído.
Nesse ataque de Junho de 2025 o Irão queixou-se de que fora traído pelos EUA porque os dois países estavam a negociar um plano para gerir o programa nuclear iraniano, inclusive com sessões de trabalho já agendadas para os próximos dias.
E a 28 de Fevereiro deste ano sucedeu exactamente a mesma coisa, com o ataque a Teerão a acontecer 24 horas antes de uma reunião muito mediatizada agendada para Viena de Áustria, a sede da AIE, sobre o programa nuclear iraniano.
Com alguns períodos de relativa acalmia pelo meio, desde então os EUA e Israel mantém ataques constantes sobre o Irão, com Telavive a ficar de fora numa boa parte destes por razões estratégicas definidas por Washington, e Teerão a ripostar contra as bases norte-americanas nos países árabes seus aliados, embora com Israel, ao contrário do que sucedeu em 2025, fora do mapa da reacção vigorosa iraniana com os seus mísseis balísticos hipersónicos e drones de longo alcance.
Quando o ataque de 28 de Fevereiro em Teerão eliminou o aiatola Ali Khamenei, que foi depois substituído pelo seu filho, Mojtaba Khamenei, actual Líder Supremo, Marco Rubio, o secretário de Estado dos EUA e Conselheiro para Segurança Nacional de Donald Trump, veio dizer que Washington se viu forçada a entrar em cena porque Israel avançou de forma autónoma contra o Irão.
Com essa declaração, Marco Rubio não informava apenas sobre a razão para os EUA avançarem, estava principalmente a dizer aos iranianos que sempre que Israel resolvesse atacar o Irão, os Estados Unidos estariam ao lado de Telavive, fosse qual fosse o contexto, porque assim aconteceu quando decorriam negociações sérias entre americanos e iranianos.
E é precisamente isso com que Benjamin Netanyhau conta depois de ter vindo dizer que não estava de acordo com o Memorando de Entendimento (MdE) assinado entre EUA e Irão a 15 de Junho deste ano, considerando-o mesmo "um crasso erro estratégico" de Donald Trump, e agora ao boicotar o seu plano de paz para Gaza.
Face a este cenário, como alguns analistas estão a avançar nas últimas horas, entre estes Alastair Crooke, diplomata britânico com profundo conhecimento do Médio Oriente e antigo dirigente da secreta externa do Reino Unido, o MI6, Israel não vai deixar que a região assente com base num entendimento entre Washington e Teerão.
O que deixa em aberto uma forte possibilidade de nos próximos dias ocorrer uma nova surpresa, como também assim o entende Mohammad Marandi, professor da Universidade de Teerão e ex-negociador da equipa iraniana sobre o JCPOA, que não encara como possível Israel não voltar a agitar as águas do Golfo Pérsico.
Ainda para mais agora que se ficou a conhecer, este fim-de-semana, que Três gigantes da região da Ásia Ocidental, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, assinaram um acordo de Defesa e Segurança em que se comprometem a defender-se mutuamente em caso de agressão.
Como apontava Larry Johnson, antigo analista da CIA e especialista de política e geoestratégia, é claramente razoável esperar que Israel não se sinta confortável com este acordo que envolve Islamabad, Ancara e Riade, porque em última análise, pode ocorrer um contexto em que Telavive apareça no mapa das preocupações das três potências signatárias.
O que é reforçado pelas palavras já hoje, segunda-feira, 10, proferidas pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Esmael Baghaei, sobre esse mesmo acordo, garantindo que o Irão não se sente minimamente ameaçado pelo seu conteúdo.
Pelo contrário, Teerão, acrescentou Baghaei, defende e tem-no sublinhado, que o grande factor de desestabilização na região do Golfo Pérsico são os EUA, com as suas dezenas de bases militares que os países árabes aceitaram por entenderem que estas lhes conferiam e garantiam segurança e protecção.
Subentendido às palavras de Esmael Baghaei está o que o Presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, veio dizer na semana passada sobre o papel dos EUA na região, que se revelou não um factor de segurança mas um elemento desestabilizador, muito porque em Washington é Israel quem determina a política norte-americana para o Médio Oriente.
Isso mesmo aponta John Mearsheimer, renomado especialista em política internacional e geoestratégia e professor da Universidade de Chicago, que sublinha repetidamente desde o início deste conflito que os EUA não estão a agir na defesa dos seus interesses mas a ariscar quase tudo ao serviço dos interesses do Governo israelita, que dificilmente são os interesses de Israel.
É que as mais recentes sondagens em Israel, no contexto das eleições de Outubro, mostram que apenas 33% dos eleitores estão ao lado de Netanyhau, cada vez mais visto como pondo os seus interesses pessoais à frente dos do país.
E isso resulta do facto de Benjamin Netanyhau ter conseguido nestes últimos anos, desde 07 de Outubro de 2023, quando ocorreu o ataque palestiniano, Hamas e Jihad Islâmica, sobre o sul de Israel e a avassaladora resposta israelita com apoio dos EUA, que levou ao corrente genocídio em Gaza, proteger-se dos tribunais onde correm vários processos judiciais contra si por corrupção agravada e branqueamento de capitais.
Netanyhau sabe que assim que a paz for a norma na Palestina, no sul do Líbano, e no Golfo Pérsico, fica sem rede e terá de responder em tribunal perante as graves acusações de que é suspeito, apesar do próprio Donald Trump já ter vindo em seu socorro, exigir à justiça israelita, embora sem efeito, que deixe de perseguir o seu "amigo Bibi".


