Médio Oriente: Trump ameaça "fechar a torneira" se Netanyhau continuar a desafiar as suas orientações – Israel mantém sul do Líbano sob fogo cerrado

Mas ao invés de agir de forma a travar as repetidas tentativas do primeiro-ministro Benjamin Netanyhau de fazer ruir o processo negocial dos EUA com o Irão, Donald Trump prefere vir a público dizer que teve uma "conversa tensa" com ele.
E nessa conversa, segundo a Axios, o Presidente dos Estados Unidos disse ao chefe do Governo de Telavive que pode ficar sozinho na "sua" guerra com o Irão, quando, na verdade, o conflito israelo-iraniano só é possível porque os israelitas contam com o apoio militar ininterrupto dos EUA.
Como alertam vários analistas, desde logo o major-general Agostinho Costa, para que os misseis israelitas cheguem ao Irão, os seus aviões F-35 têm de voar mais de 2.000 kms na ida e outro tanto na volta, quando o seu raio de acção máximo é de 2.000 kms carregado.
O que significa que para um destes aviões fornecidos pelos EUA a Israel executar uma missão de combate contra o Irão precisa de ser reabastecido em voo pelo menos uma vez na ida e outra no regresso.
O que só é possível através dos Boeing KC-135 Stratotanker norte-americanos que estão sempre presentes nas bases militares em Israel e servem de apoio permanente às missões israelitas contra o Irão.
O que quer dizer que para que o Presidente dos EUA trave os ímpetos belicistas de Benjamin Netanyhau bastar-lhe-ia manter os seus aviões-cisterna no chão. Mas, como refere Agostinho Costa, não é isso que tem acontecido.
O antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, Jacques Baud fala mesmo numa encenação por parte de Trump para consumo interno tendo em conta que os EUA vão realizar eleições intercalares em Novembro e esta guerra no Médio Oriente é cada vez mais impopular.
Apoio popular a Israel cai a pique nos EUA
Esta falta de apoio popular não abrange apenas a guerra com o Irão, também Israel tem hoje uma taxa de aprovação nos EUA muito longo do passado, havendo mesmo sondagens que apontam para resultados nunca vistos na descida nesse apoio.
A Gallup, uma das maiores empresas de sondagens no mundo, divulgou uma sondagem em Abril onde mostra que apenas 31% dos norte-americanos mantém o apoio inequívoco a Israel, quando ainda em 2023 essa percentagem era superior a 75%, sendo que o apoio à Palestina é hoje superior a 40% quando há três anos não chegava a 20%.
O que, tudo somado, faz com que o risco de o Partido Republicano de Donald Trump possa vir, como outras sondagens mostram ser o mais certo, a perder a maioria nas duas câmaras do Congresso, a dos Representantes e no Senado.
E se tal suceder, também nisso haverá um elemento historicamente raro, que é o partido do Presidente no activo perder o Senado, visto que os Representantes mudarem de lado é um pressuposto comummente aceite como certo quando ocorrem dificuldades económicas.
O problema é que no presente, e em resultado directo da guerra no Golfo Pérsico e o subsequente fecho do Estreito de Ormuz, a economia norte-americana abalou e a inflação, a partir do preços dos combustíveis e fertilizantes, duas das matérias-primas fortemente influenciadas por isso, está a gerar atrito entre os eleitores.
Trump, o "mágico"
É essa a razão pela qual cada vez mais analistas notam que Trump está a jogar em dois tabuleiros, fazendo chegar ao público, via alguns dos media mais próximos da Casa Branca, como o Axios ou a Fox News, a ideia de que está zangado com Netanyhau mas não faz nada, de concreto, para o impedir de boicotar uma após outra vez as negociações com Teerão.
Note-se que, logo após o começo da sucessão de ataques e contra-ataques entre o Irão e Israel, começado com uma vaga de misseis iranianos sobre Israel depois de Telavive ter atacado Beirute, Donald Trump veio dizer que um acordo com Teerão está iminente.
O norte-americano, segundo esses mesmos media que lhe são mais próximos, realizou, nerste período, duas chamadas telefónicas "furiosas" com Benjamin Netanyhau, sendo esta última, noticiada pelo Axios nesta terça-feira, 09, a mais dura a ponto de o ter ameaçado de "ficar sozinho" nas suas guerras.
É que nas negociações que decorrem entre Washington e Teerão com mediação paquistanesa, para colocar fima à guerra iniciada pela coligação israelo-americana a 28 de Fevereiro, os iranianos insistem e não mudam de posição em abranger as frentes do conflito no sul do Líbano e em Gaza, onde o atacante é Israel.
Recorde-se que o Irão atacou Israel no Domingo, 07, depois de ter avisado que o faria se Israel voltasse a bombardear Beirute, capital libanesa, no seu longo, de décadas, conflito com o Hezbollah, o grupo xiita que nasceu da resistência à ocupação israelita no Líbano, no início dos anos de 1980.
Netanyhau, o outro "mágico"
Foi isso mesmo que Benjamin Netanyhau fez com o propósito de boicotar as conversações entre os EUA e o Irão, levando os iranianos a ripostar sobre o norte de Israel.
O que aconteceu após outra sucessão de fissuras no cessar-fogo que vigora desde o início de Abril provocadas pelos Estados Unidos ao atacarem várias posições militares no sul do Irão, o que levou Teerão a atacar as bases dos EUA nos países árabes vizinhos, como o Kuwait e o Bahrein.
Apesar disto tudo, Donald Trump tem insistido, como voltou a fazer já hoje, em que um acordo sólido com o Irão está iminente, falando mesmo na sua intenção de declarar uma "vitória total" dos EUA nesta guerra.
Apesar da forma pouco diplomática como Trump apresentou a sua intenção de declarar vitória num conflito que claramente não está a ganhar, como é unanimemente reconhecido pelos analistas, também o Irão aponta nessa direcção, com o seu embaixador nos EUA a falar igualmente num acordo satisfatório para ambas as partes possível em breve.
O aviso de Ghalibaf
Apesar disso, o Irão, como fez saber, entre outras figuras do topo da hierarquia do regime iraniano, o chefe da equipa negocial iraniana e Presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, "se Israel voltar a atacar Beirute, o Irão volta a ripostar sobre Israel de imediato".
Este responsável acrescenta ainda que o Irão não abdica da sua posição no Estreito de Ormuz, que mantém sob seu controlo, impondo um pagamento, cujo formato não está ainda definido, para que os navios cheguem do Oceano Índico ao Golfo Pérsico e vice-versa.
O Estreito de Ormuz é, recorde-se, uma das passagens marítimas mais importantes para a economia global, passando por ele 20% do crude e do gás mundiais, além de quase 30% dos compostos para fertilizantes que "alimentam" o Planeta e quase metade do hélio usado e insubstituível na indústria global dos microchips.
Para tentar pressionar o Irão de modo a libertar esta passagem estratégica, os EUA ergueram um bloqueio naval aos portos iranianos, embora existam dúvidas sobre a sua eficácia, visto que os navios de guerra norte-americanos se posicional a centenas de kms da costa iraniana devido ao risco de serem atacados pelos seus misseis anti-navio e drones.
Se a palavra de Trump se vier a confirmar, um acordo com o Irão pode estar concluído nas próximas duas semanas.
Para já, como sempre (ver links em baixo), os mercados energéticos parecem inclinados a acreditar no Presidente norte-americano porque o barril, tando o Brent, em Londres, como o WTI, em Nova Iorque, estão em acelerada descida e a aproximarem-se do preço anterior à recente escalada israelo-iraniana, que, no caso do Brent é os 92 USD e o WTI os 86 USD.


