Sonangol revela que Galp prepara novo investimento em Angola

A Galp pretende voltar a investir em Angola em parceria com a Sonangol nas áreas de exploração e produção. A revelação foi feita esta quarta-feira por Sebastião Gaspar Martins, Presidente do Conselho de Administração da petrolífera angolana (PCA), durante a quarta edição da conferência Doing Business Angola, em Lisboa, onde destacou ainda as oportunidades de investimento no país, o adiamento da entrada em bolsa da empresa e a estratégia para reforçar a independência energética de Angola.
Durante a conferência Doing Business Angola, promovida pela Forbes África Lusófona e pelo Jornal Económico, no Epic Sana Lisboa, Sebastião Gaspar Martins revelou que a Galp prepara um novo ciclo de investimento em Angola em parceria com a Sonangol, uma decisão que o administrador considera ter surgido devido ao sinal de confiança nas oportunidades que Angola continua a oferecer: “Angola continua a ser um bom local para se poder investir. Nós, a nível do nosso portefólio, temos oportunidades de investimento que, se forem do interesse de grande parte dos empresários aqui presentes [na conferência], podem fazê-lo”.
Nesse contexto, pormenorizou: “Ainda recentemente tivemos a visita de uma delegação da Galp que, depois de ter saído, voltou e quer investir connosco nas áreas de exploração e produção”, declarou.
O responsável recordou que as duas empresas, Galp e Sonangol, já mantêm uma relação histórica através da Sonangalp, a joint venture na área da distribuição de combustíveis, sublinhando que a parceria entre ambas continua a ser estratégica para ambas as empresas: “Com a Galp é uma empresa que é praticamente irmã”, resumiu.
Além da Galp, Sebastião Gaspar Martins destacou outras parcerias relevantes que a empresa da qual é administrador tem com Portugal, indicando o projeto desenvolvido com a Mota-Engil para reativar um estaleiro naval destinado à construção de embarcações para a indústria petrolífera: “Estamos com a Mota-Engil e vamos reativar um estaleiro naval para a construção de navios para a indústria petrolífera”, disse.
A respeito do futuro do setor energético angolano, Sebastião Gaspar Martins apontou como prioridade o reforço da capacidade nacional de refinação. No seu entendimento, a decisão do Governo de Luanda de prosseguir com a construção de novas refinarias permitirá reduzir a dependência das importações de combustíveis, aumentar a criação de valor no país, gerar emprego e reforçar a estabilidade económica. Nesse âmbito, o administrador defendeu a valorização económica local, através da colaboração entre empresas angolanas e parceiros internacionais: “Só estaremos mais fortes se nos associarmos a outras empresas que possam acrescentar aquilo que já fazemos. Empresas estrangeiras ou nacionais são bem-vindas”, afirmou.
Repetindo o discurso de que a empresa dispõe de um conjunto de ativos capazes de atrair investidores portugueses, o presidente da Sonangol procurou transmitir uma mensagem de confiança aos empresários presentes na conferência: “Angola é estável em termos de estabilidade contratual. Estamos, como Sonangol, envolvidos nas 41 concessões que temos e estamos nesses negócios com investidores diversos, tanto estrangeiros como nacionais. Essas empresas não estariam connosco se nós não fôssemos um parceiro ideal para trabalhar. Temos tudo, como empresa e como país, para quem quiser juntar-se a nós e trazer todo o tipo de investimento”, referiu.
Na intervenção, Sebastião Gaspar Martins fez também um balanço do processo de transformação da Sonangol, que em 2026 assinala 50 anos de existência, considerando que a reforma da empresa permitiu torná-la mais eficiente e orientada para os resultados.
Segundo explicou, o “segredo” foi a empresa ter-se concentrado nas suas áreas estratégicas, reorganizando o portefólio: “Retirámos da Sonangol um bom número de ativos e concentrámo-nos em cinco unidades de negócio e uma outra para negócios não core. Hoje abrangemos toda a cadeia de valor, desde a produção à distribuição, refinação, gás, trading e shipping”, explicou.
Em complemento, Sebastião Gaspar Martins disse que “o que a Sonangol fez não foi mais do que seguir a orientação para um novo modelo de governação que levaria a empresa a tornar-se mais eficiente e mais virada para o negócio. Olhando para trás, dizemos que foi o melhor que poderia ter sido feito”, apontou.
Nesse caminho de transformação da Sonangol, o PCA reforçou uma ideia que tinha sido anteriormente transmitida na conferência: de que a empresa angolana se assume hoje essencialmente como uma companhia energética mais do que uma empresa petrolífera, como era vista no passado. O responsável acrescentou que a empresa está igualmente a apostar nos minerais críticos, procurando assegurar um posicionamento de longo prazo neste segmento.
Questionado sobre a entrada da Sonangol em bolsa, Sebastião Gaspar Martins confirmou que o objetivo de alienar até 30% do capital se mantém, mas recusou avançar um calendário, garantindo que isso não acontecerá este ano: “Queremos alienar até 30% em bolsa. Será feito no momento certo”, disse.
Segundo explicou, a empresa continua condicionada pelas responsabilidades que assume enquanto empresa pública, nomeadamente no apoio ao sistema de subsídios aos combustíveis: “Há todo um conjunto de ineficiências, mas isso não quer dizer que não estamos a preparar-nos para ir à bolsa. Não o faremos à custa de outras pressões. Se me perguntar se é este ano, direi que não. No momento certo vamos comunicar”, garantiu.
Apesar do adiamento, o PCA mostrou-se convicto de que a operação representará uma oportunidade para os investidores e até adiantou: “Eu vou comprar ações quando chegar esse momento. E vou aconselhar todos a fazê-lo. Vai trazer algo de muito positivo”.
Para além da energia, Sebastião Gaspar Martins destacou ainda setores como a agricultura, a logística e os minerais críticos como áreas com elevado potencial para aprofundar a cooperação económica entre Angola e Portugal.
No final da conversa, desafiado a responder a um breve questionário, Sebastião Gaspar Martins apontou o capital humano como o maior ativo de Angola e afirmou que a melhor decisão da sua carreira foi “ter-me mantido onde estou”.



