Viana- Os restos mortais de antigos combatentes sul- africanos, falecidos em território angolano durante a luta contra o regime do apartheid, foram entregues esta sexta-feira, em Luanda, numa cerimónia espiritual no Campo de Trânsito.
Viana- Os restos mortais de antigos combatentes sul- africanos, falecidos em território angolano durante a luta contra o regime do apartheid, foram entregues esta sexta-feira, em Luanda, numa cerimónia espiritual no Campo de Trânsito.
A cerimónia de repatriamento espiritual aconteceu no Campo de Trânsito de Viana, actual Mulenvos, local que durante o período da luta de libertação funcionou como centro administrativo de triagem dos veteranos militares, antes da sua distribuição por diferentes acampamentos.
Na ocasião, o secretário do Bureau Político do MPLA para as Técnologias de Informação e Comunicação, Pedro Teta, disse que a liberdade da África Austral foi uma obra colectiva, e os homens e mulheres que hoje são homenageados são dela construtores.
Acrescentou que, durante décadas, "a terra angolana guardou estes combatentes como guardou os seus próprios filhos. Hoje, devolvemo-los à Pátria por que deram a vida, uma África do Sul livre, democrática e não racial”.
Às famílias, que esperaram tantos anos por este dia, Pedro Teta disse que “os vossos entes queridos não morreram em terra estranha, morreram entre irmãos. Que o seu regresso vos traga a paz que merecem”.
Salientou durante a cerimónia Angola pagou um preço elevado por abrigar milhares de jovens sul-africanos, muitos saídos da revolta do Soweto, que encontraram aqui formação, abrigo e uma segunda Pátria.
O regime do apartheid respondeu com invasões, bombardeamentos e a desestabilização do país.
"Novo Catengue foi bombardeado em 1979. Combatentes do MK caíram ao lado dos soldados das FAPLA, partilhando a mesma trincheira e o mesmo destino. O sangue angolano, cubano e o sul-africano misturaram-se nesta terra", disse.
Pedro Teta referiu que essa resistência comum, que teve no Cuito Cuanavale o seu momento decisivo, abriu caminho aos Acordos de Nova Iorque de 1988, à independência da Namíbia, à libertação de Nelson Mandela e ao fim do apartheid.
Por seu turno, a representante do Congresso Nacional Africano (ANC), T Majola, agradeceu Angola por ter sido o local onde foram preparadas todas as operações para derrubar o regime do apartheid, daí que não se vai conseguir separar a amizade entre os dois povos.
Para as famílias dos combatentes, T Majola disse que o sangue dos seus filhos alimentou a vitória do país contra um regime racial e que a luta agora é combater o desemprego e a pobreza.
Já o embaixador de Cuba em Angola, Oscar León González, destacou que a longa luta contra o regime racista na África do Sul é um exemplo de combate e coragem do século XX, cujo líder foi Nelson Mandela.
Disse que a revolução cubana teve o privilegio de estabelecer laços com quadros do ANC e contribuir para os seus propósitos de revolução, por isso é uma homenagem merecida aos combatentes sul-africanos cujo sacrifício contribuiu para a liberdade de outros povos.
Por sua vez, o conselheiro da Embaixada da Rússia em Angola, Yuri Kirillov, considerou oportuna a homenagem para a preservação da memória histórica e da verdade sobre os acontecimentos que não só determinaram a configuração da África Austral, mas que tornaram também o ponto de partida para uma nova etapa de desenvolvimento de todo o continente.
"O povo russo foi e continua a ser um defensor da justiça histórica e hoje prestamos homenagem aos heróis de África, àqueles que escolheram abnegadamente o caminho da luta pela liberdade dos seus povos", salientou.
Para o administrador municipal dos Mulenvos, Euclides Faria da Costa, a cerimónia é um recordar do que foi a luta de libertação dos povos da África do Sul, do Zimbabwe, da Namíbia e de Angola.
Recordou que quando se alcançou a independência, o Presidente Agostinho Neto havia afirmado que na África do Sul, Zimbabwe e Namíbia estava a luta, e em função disso abriu as portas para que combatentes do ANC e da Swapo pudessem instalar bases militares nesta região.
A iniciativa enquadra-se no programa Património de Libertação Africana Caminhos para a Independência, bem como na implementação da Politica Nacional Sul-Africana de repatriamento e Restituição de Restos Mortais e Objectos de Património, conduzida pela Agencia de Recursos Patrimoniais da Africa do Sul (SAHRA) com diferentes departamentos e instituições governamentais dos dois países.
O momento representou a reafirmação dos laços históricos e fraternos entre Angola e a África do Sul, construídos a partir da luta comum pela libertação da África Austral.
Participaram da cerimónia entidades políticas, religiosas, diplomáticas, autoridades tradicionais e familiares de combatentes.
Novo Catengue, na província de Benguela, foi o maior campo de treinamento militar do Congresso Nacional Africano (ANC) e do seu braço armado, o Umkhonto we Sizwe (MK), em solo angolano durante a luta contra o apartheid.
O local foi alvo de um bombardeio preciso da Força Aérea da África do Sul (SADF) em 14 de Março de 1979. HDC/SC




