Crise das divisas sufoca Kinguilas de Luanda: da abundância ao "trabalho para a barriga"

“Esse negócio baixou muito”. É com esta frase de lamento que as kinguilas dos bairros Mártires de Kifangondo, Kicagil e Talatona resumem a crise que enfrentam com a escassez de divisas no mercado informal há mais de 10 anos.
As kinguilas (expressão em kimbundo que em português significa “aquele que espera”) de Luanda continuam a debater-se com este cenário difícil. Relativamente a uma actividade que outrora já deu muitos lucros, as mulheres e os homens nela envolvidos dizem agora “trabalhar só para a barriga”. Corridas constantes atrás das viaturas, assobios de um lado para o outro e notas de Kwanza entre as mãos é o cenário registado pelo Valor Económico nos pontos de Luanda onde a equipa do jornal passou. Os negociantes “invadem” as viaturas logo que estas param, como um enxame que luta pelo mel, disputando entre si um espaço privilegiado a fim de falarem cara a cara com quem vem para trocar moedas internacionais por Kwanzas ou vice-versa. A realidade é que os bancos comerciais praticamente não vendem moeda estrangeira, o que tem obrigado os que necessitam de viajar ou de enviar dinheiro para o exterior, por motivos de saúde ou para pagar formação, a recorrer ao mercado informal. Esta escassez, além de já ter levado muitas kinguilas a desistir do negócio, fez com que outras, mesmo permanecendo, vissem frustrados muitos dos seus sonhos. Suzana de Malanje, nome atribuído pelas colegas para a diferenciar de outras Suzanas, abortou o sonho de construir uma residência de “primeiro andar”, quando a obra já estava na viga geral. Como kinguila há 22 anos, Suzana testemunha que, outrora, havia semanas em que conseguia trocar 10 a 15 mil dólares, mas actualmente nem mil dólares consegue trocar. “Tive que desistir da construção da casa dos meus sonhos, agora não se consegue muita coisa. Só trabalhamos para a barriga e para pagar a escola das crianças”, confidencia. Jac José, “kinguila” do bairro Mártires de Kifangondo, lamenta a pouca procura influenciada pela falta de divisa no mercado e diz que este problema que já dura há vários anos levou a que o seu filho primogénito regressasse da Bélgica, onde se encontrava em formação, mesmo antes de ter terminado. Jac revela que chegou um período em que nem 500 euros por mês conseguia enviar ao filho, quando “antes desta fase difícil enviava entre mil e 1500 dólares por mês”. Durante a ronda feita nos dias 10 e 11 deste mês, o Valor Económico verificou que, no bairro Mártires de Kifangondo, as kinguilas trocavam a nota de 100 euros a 132 mil Kwanzas, e o inverso a 134 mil Kwanzas. No mesmo local, uma nota de 100 dólares é trocada por 109 mil Kwanzas, enquanto a compra do mesmo valor em dólares custa 112 mil Kwanzas. Já nos bairros de Talatona e Kicagil os valores eram relativamente mais altos. A nota de 100 euros, por exemplo, paga-se a 133 mil Kwanzas e vende-se a 137 mil Kwanzas; já a troca de 100 dólares está no valor de 110 mil Kwanzas e o inverso a 115 mil Kwanzas.


