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Uma empresa israelita especializada em operações de influência terá formado funcionários do Governo angolano para intervir nas redes sociais através de identidades falsas e conteúdos coordenados. A investigação é do Citizen Lab, unidade de investigação da Universidade de Toronto, no Canadá, e descreve uma operação que associava formação técnica à execução de campanhas destinadas a moldar o debate público.
Assinado por Alberto Fittarelli, John Scott-Railton e Maia Scott, o estudo examina a BlackCore, empresa que comercializa serviços de influência digital. Para Angola, a promessa era ambiciosa: criar uma estrutura profissional de comunicação do Estado, capaz de crescer e abandonar práticas consideradas amadoras pela própria empresa.
Os investigadores encontraram uma página intitulada “Campanha do Governo Angolano”, ainda acessível no início de Abril de 2026, mas entretanto eliminada. Ali se anunciava uma formação de quatro semanas, prevista para Fevereiro desse ano, sobre construção de narrativas, redacção, gestão de tráfego e operações nas redes sociais. O programa previa o lançamento de campanhas na Meta e no TikTok durante a terceira semana.
Entre os resultados previstos contavam-se um repositório de histórias relacionadas com as várias províncias, modelos de comunicação, um calendário editorial para três meses e um painel de acompanhamento de resultados. A formação incluía ainda o estudo dos públicos angolanos e a criação de conteúdos dirigidos aos jovens no TikTok. A proposta mostra uma ambição de continuidade: deixar no país capacidade instalada para produzir, distribuir e avaliar mensagens depois de concluído o curso.
Uma fonte forneceu aos investigadores o relatório final da formação, acompanhado de materiais e folhas de cálculo. Segundo esse documento da BlackCore, o programa começou a 19 de Janeiro de 2026 e prolongou-se por mais de 14 semanas, até Abril. A proposta inicial e o balanço final apresentam, portanto, calendários diferentes.
Para verificar os materiais recebidos, o Citizen Lab cruzou os objectivos e resultados descritos com as páginas públicas da empresa, examinou metadados e confirmou a existência de contas e páginas mencionadas nos documentos. Os investigadores consideram altamente provável que a formação tenha ocorrido nos termos descritos, embora não tenham conseguido confirmar essa informação de forma independente nem identificar os formandos e formadores.
No centro da operação aparece a Agita News, uma página de Facebook que se apresentava como órgão de informação. Segundo o estudo, tratava-se de um órgão fictício, utilizado para divulgar conteúdos próprios e encaminhar leitores para um sítio externo. A aparência jornalística ajudava a dar credibilidade às mensagens postas em circulação.
Os investigadores reconstituíram o método utilizado: para começar, eram criadas mensagens publicadas por identidades falsas. Os conteúdos eram depois reproduzidos em grupos, ampliando-se artificialmente a sua circulação. As visualizações, visitas e reacções de utilizadores reais eram então medidas, o que permitia ajustar a operação em função dos resultados. Assim se procurava converter uma intervenção organizada nos bastidores em participação aparentemente espontânea.
Dois perfis foram associados à operação, com elevado grau de confiança: “Dorivaldo Kiala” e “Gancho Atalaia”. O primeiro apresentava-se como activista político angolano. O segundo surge em imagens do painel de administração da página de Facebook Angola 24 Horas como autor de uma publicação. Ambos parecem ser personagens fictícias, com fotografias provavelmente geradas por inteligência artificial.
Estes nomes constavam dos materiais de acompanhamento da campanha, mas não é possível identificar as pessoas reais que operavam as suas contas. O Citizen Lab sublinha que os documentos analisados não nomeiam os funcionários angolanos formados pela BlackCore. A identidade digital construída para influenciar o público protegia o anonimato de quem a utilizava.
O relatório da empresa contabiliza mais de 40 conteúdos produzidos e pelo menos 24 publicações avaliadas. Uma imagem relativa à Agita News mostra quase 200 mil visualizações numa publicação. Outra, da Angola 24 Horas, apresenta mais de 632 mil visualizações. São números de circulação, insuficientes para demonstrar mudanças de opinião ou influência efectiva sobre escolhas eleitorais.
A própria BlackCore reconheceu que a campanha de anúncios na Meta teve resultados abaixo do esperado, atribuindo as dificuldades à complexidade da ferramenta. O balanço comercial da empresa deve, por isso, ser distinguido da avaliação independente da eficácia da operação.
Embora a oferta geral da BlackCore incluísse ataques direccionados e perturbação de narrativas adversárias, o plano angolano analisado definia como finalidade a divulgação de campanhas favoráveis ao Governo. O estudo não demonstra que todas as capacidades anunciadas pela empresa tenham sido utilizadas neste programa.
Os investigadores não conseguiram obter um contacto actualizado da BlackCore para solicitar comentários: os seus sítios públicos e a presença nas redes sociais tinham sido eliminados. A investigação também não identifica o organismo público contratante, os responsáveis pela decisão, o valor do serviço ou a origem dos pagamentos. Ao Executivo impõem-se explicações. Que relação manteve com a BlackCore? Que serviços foram contratados? Houve financiamento público? Que funcionários participaram e quem supervisionou as contas? A resposta exige documentos e responsáveis identificados. Se uma estrutura que se apresenta como comunicação do Estado recorre a identidades inventadas, está em causa a confiança dos cidadãos reais. O poder público deve esclarecer quem fala em seu nome e com que recursos.
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