Especialista defende publicação dos resultados nas mesas de voto como garantia adicional de transparência

A eventual introdução de soluções de inteligência artificial no sistema eleitoral angolano continua a dividir opiniões. O tema dominou a mais recente edição do programa “Tribuna Livre”, da Rádio Correio da Kianda, onde juristas, analistas e políticos debateram os impactos da medida anunciada pelo Tribunal Constitucional (TC).
O jurista David Mendes manifestou reservas quanto à eficácia da ferramenta tecnológica para assegurar maior transparência. Na sua óptica, o principal risco reside na fase de inserção dos dados no sistema informático, defendendo que a credibilidade do processo deve continuar ancorada em mecanismos clássicos de controlo. Como alternativa, propôs a publicação imediata dos resultados nas mesas de voto, medida que considera fundamental para reforçar a fiscalização pelos partidos e pelos cidadãos.
Em posição distinta, o político e analista Alexandre Sebastião André mostrou-se favorável à modernização tecnológica. O comentador entende que a inteligência artificial poderá permitir maior celeridade e contagem em tempo real, à semelhança de experiências internacionais recentes. Também relativizou a eficácia do aumento do número de comissários partidários na Comissão Nacional Eleitoral (CNE), argumentando que as limitações operacionais impostas aos fiscais reduzem o impacto prático dessa medida.
Já Luís Van-Dúnem adoptou uma leitura mais prudente, sustentando que a eficácia da tecnologia dependerá essencialmente da boa-fé institucional, tanto do Executivo como dos partidos na oposição. Para o analista, qualquer sistema informático está sujeito à parametrização humana, o que significa que a tecnologia, por si só, não elimina riscos de manipulação.
Por sua vez, o cientista político Eurico Gonçalves recordou que não existe, a nível mundial, um processo eleitoral totalmente imune a riscos de desinformação ou manipulação emocional. Defendeu, no entanto, que a modernização deve caminhar no sentido de acompanhar simultaneamente o voto físico e os processos de digitalização, reduzindo vulnerabilidades.
O debate surge na sequência da intenção do Tribunal Constitucional de introduzir, ainda este ano, soluções de inteligência artificial para a detecção de fraudes digitais, no quadro da modernização dos sistemas eleitorais e de processamento de dados. De acordo com o Plano Anual de Contratação da instituição, o investimento previsto ultrapassa os 2,4 mil milhões de kwanzas.


