Especialistas dizem que CPLP está muito aquém das expectativas e impacta pouco a vida dos seus cidadãos

Analistas entrevistados pela Lusa consideraram que a CPLP, que assinala 30 anos esta Sexta-feira, ficou muito aquém das expectativas e tem pouco impacto na vida dos seus cidadãos.
"Trinta anos depois, podemos dizer que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa [CPLP] ficou muito aquém das expectativas iniciais", afirmou o analista brasileiro Adriano de Freixo.
Nesse seguimento, para o também investigador de política externa, a ideia de "criar uma organização internacional de peso, capaz de aumentar a integração entre os países lusófonos espalhados pelo mundo, ainda está muito longe de se concretizar".
Para o presidente da Universidade Lusíada em São Tomé e Príncipe, Liberato Moniz, há ausência de uma agenda concreta e de projectos com continuidade na vida das pessoas e os dirigentes não sabem o que é a organização, nem qual a sua importância.
O analista cabo-verdiano Redy Lima classifica a CPLP de ineficaz e considera que esta tem pouco impacto para os cidadãos.
Por outro lado, enquanto cidadão cabo-verdiano, sente que o seu país prioriza acordos bilaterais.
A mesma percepção foi apresentada pelo professor moçambicano Elísio Macamo, da Universidade de Basileia, na Suíça, que diz sentir que esta é "uma organização de concertação política (...) que, num primeiro momento, tem pouca relevância imediata para os cidadãos".
Da Guiné-Bissau, o analista Rui Landim lamentou que a "CPLP seja só palmadas nas costas" e que a instituição seja inútil desde que foi criada, em 1996, pois não cumpre os seus próprios objectivos.
Na mesma linha de concordância, o analista angolano Almeida Henriques reconheceu que "não há verdadeiros investimentos na CPLP" e que o discurso político "não se traduz necessariamente naquilo que é o projecto".
O politólogo referiu que Portugal e o Brasil sustentam financeiramente a organização, mas os projectos "não beneficiam directamente a vida das pessoas".
Já o especialista português em assuntos africanos Fernando Jorge Cardoso reiterou que "qualquer objectivo de integração económica entre países sem relações comerciais prévias é absolutamente irrealista" e que, para Portugal, a CPLP vale sobretudo como projecto político e diplomático.
Segundo a perspectiva do advogado equato-guineense Tutu Alicante, a comunidade em nada impactou a vida dos cidadãos da Guiné Equatorial, que faz parte da CPLP desde 2014.
Por outro lado, o ex-pré-candidato presidencial são-tomense, Liberato Moniz, frisou que, na sua opinião, "há falta de uma agenda na CPLP, uma agenda que saiba que 'em Janeiro faz-se uma coisa, mas em Junho dá-se continuidade', por exemplo.
Assim, considerou o arquitecto são-tomense, "a CPLP vai-se definhando e morrendo aos poucos".
No entanto, por outro prisma, para Adriano Freixo, a CPLP contribuiu positivamente para "avanços reais na cooperação educativa".
"O grande número de estudantes africanos e timorenses a frequentar universidades no Brasil e em Portugal é um dos pontos mais relevantes", exemplificou.
Na opinião do analista Fernando Jorge Cardoso, o acordo de mobilidade foi a melhor realização dentro da organização e a Convenção Multilateral de Segurança Social - já ratificada por Portugal, Timor-Leste e Brasil, mas que ainda não vigora - "poderá ser a segunda [melhor realização]".
Sobre o futuro da organização, Elísio Macano considerou que esta precisa de uma "discussão política" sobre os valores que quer defender e os princípios que os membros devem respeitar.
Já Liberato Moniz defendeu que "no dia em que a Justiça funcionar na CPLP, as coisas vão melhorar, porque as pessoas sentir-se-ão responsáveis pelos seus actos".
A CPLP, que assinala 30 anos a 17 de Julho, é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.



