
À DW, analista considera que Higino Carneiro é um dos únicos candidatos capazes de combater João Lourenço na presidência do MPLA e que conta com apoios dentro e fora do partido. Ex-general formalizou hoje a candidatura.
Em Angola, o político Higino Carneiro formalizou na manhã desta quinta-feira (25.06), em Luanda, a sua candidatura à presidência do MPLA, cuja eleição vai decorrer em dezembro deste ano. O general na reforma entregou cerca de 20 mil subscrições de militantes, número superior às 11 mil assinaturas apresentadas pelo atual presidente do partido e candidato à reeleição, João Lourenço.
Apesar de ter sido constituído arguido pela Procuradoria-Geral da República por crimes de peculato, Higino Carneiro afirmou estar confiante de que o processo judicial não vai comprometer a sua candidatura.
Em entrevista à DW, o académico e analista político Albino Pakisi nota que há, neste caso, "uma grande interferência" do Presidente de Angola. "Em muitos casos, essas instituições, como a PGR, a própria justiça, é utilizada para fins políticos. É o que estamos a notar aqui", diz.
DW África: Até onde pode chegar Higino Carneiro com esta pré-candidatura à liderança do MPLA?
Albino Pakisi (AP): O que está a acontecer no MPLA é uma luta a que nós chamamos de "luta de titãs", porque Higino Carneiro não é um militante qualquer. É um militante que tem mais de 40 anos da militância do partido e, portanto, uma das únicas figuras que se apresenta em pé de igualdade para combater com alguém o atual presidente do partido MPLA, João Lourenço.
DW África: Fica-se aqui com alguma sensação de que Higino Carneiro granjeia alguma simpatia dentro e até mesmo fora do MPLA. Não há aqui algum risco de rutura dentro do MPLA, caso a sua pré-candidatura seja chumbada?
AP: É preciso dizer que Higino Carneiro tem apoios não apenas dentro do partido, embora as pessoas dentro do partido MPLA, que nós chamamos cá em Angola de "meio falsos", porque apoiam apenas aquele que tem o poder e dificilmente apoiam claramente alguém que não tenha o poder, como é o caso de Higino Carneiro, que esteja a concorrer. Mas a grande verdade é que, e dizes bem aí nessa pergunta, ele tem apoios internos no partido e tem apoio externo.
João Lourenço age como "Trump" no MPLA
To view this video please enable JavaScript, and consider upgrading to a web browser that supports HTML5 video
Agora, a questão de chumbar ou aprovar a sua candidatura não vem por conta dos apoios. Se a candidatura for chumbada virá essencialmente de uma guerra que o Presidente João Lourenço entendeu declarar o ano passado, quando Higino Carneiro lhe apresentou esta vontade de concorrer ao cadeirão máximo. Ele deu uma entrevista à TPA e a partir daí as coisas azedaram. Se esta candidatura for chumbada pela subcomissão de candidatura será por conta disso porque, de facto, há uma rivalidade muito clara entre o João Lourenço e Higino Carneiro.
DW África: Mas há ou não há risco de rutura dentro do MPLA se a candidatura de Higino Carneiro for chumbada?
AP: O MPLA anda meio dividido já há algum tempo. Há uma ala que apoia João Lourenço e outra ala que não apoia nem de dia nem de noite. Vamos ver o que é que isso vai dar e vamos esperar como será o Congresso em dezembro. Nós torcemos para que corra tudo bem. Agora, à semelhança do que aconteceu em Moçambique, penso que João Lourenço corre um risco muito grande de ser desautorizado e de apresentar um candidato para as eleições de 27 que não será aceite, e isso pode acontecer no Congresso. O risco é muito grande.
DW África: Higino Carneiro será ouvido esta sexta-feira pela Procuradoria-Geral da República, onde foi constituído arguido por crimes de peculato e branqueamento de capitais. É uma mera coincidência que seja ouvido na PGR um dia após a entrega das assinaturas?
AP: Nós percebemos que a PGR em Angola responde ao Presidente da República. Portanto, se em casos pequeninos nós não temos a PGR, em casos grandes, como este de Higino Carneiro, Isabel dos Santos, e tantos outros, o PR interfere diretamente na PGR, porque a PGR representa o Estado e o chefe do Estado nos termos do artigo 108 é o Presidente da República. Temos aqui uma grande interferência e , em muitos casos, essas instituições como a PGR, a própria justiça, é utilizada para fins políticos. É o que estamos a notar aqui. Vamos perceber até que ponto vai isto.
Radar DW: A guerra pela liderança do MPLA
To view this video please enable JavaScript, and consider upgrading to a web browser that supports HTML5 video



