O Presidente da República, João Lourenço, defendeu esta terça-feira, 22, em Nova Iorque, o reforço do papel central das Nações Unidas na manutenção da paz e segurança internacionais, perante o agravamento dos conflitos e das tensões geopolíticas em várias regiões do mundo.
Ao discursar na 81.ª sessão da Assembleia Geral da ONU, o Chefe de Estado angolano afirmou que o mundo atravessa um momento de profunda instabilidade e alertou que a actual conjuntura o aproxima “assustadoramente de uma conflagração global”.
João Lourenço considerou necessária uma “profunda reflexão” no seio das Nações Unidas, que apontou como a única instituição internacional com legitimidade para reunir todos os países e procurar soluções para os principais problemas que afectam a paz mundial.
O Presidente angolano apelou, por isso, à actuação com “sabedoria e coragem” para restaurar o papel central da ONU e a sua responsabilidade “insubstituível” na manutenção da paz mundial.
A posição surge depois de Angola ter defendido, na preparação para esta 81.ª sessão, o respeito pelos princípios da Carta das Nações Unidas e o diálogo como instrumento fundamental para a promoção da paz e da segurança internacionais.
Na sua intervenção, João Lourenço denunciou aquilo que considerou ser uma subalternização das regras que regulam as relações internacionais, afirmando que a lógica da força, da intimidação e da imposição de interesses unilaterais tem ganhado espaço.
Segundo o Presidente, esta realidade está na origem da instabilidade registada em diferentes regiões, com destaque para a Europa, o Médio Oriente, o Golfo Pérsico e África, enquanto aumentam também as tensões na região da Ásia-Pacífico.
O Chefe de Estado angolano manifestou preocupação com a ausência de sinais encorajadores para uma solução próxima dos conflitos entre a Rússia e a Ucrânia, no Médio Oriente e no Golfo Pérsico.
Para João Lourenço, a actual conjuntura representa uma ameaça não apenas à paz, mas também à segurança alimentar, energética e humanitária dos países, sobretudo dos mais vulneráveis.
O Presidente destacou igualmente o papel que Angola tem procurado desempenhar na prevenção e resolução de conflitos em África.
Entre as iniciativas mencionadas esteve a 21.ª Conferência Extraordinária da União Africana sobre o Reforço dos Mecanismos de Prevenção e Resolução de Conflitos em África, realizada recentemente em Luanda.
João Lourenço referiu ainda a Iniciativa do Apelo à Paz, realizada em Julho em parceria com a Aliança das Civilizações das Nações Unidas, e anunciou a realização, em Outubro, do Fórum Pan-Africano para a Cultura da Paz e Não-Violência – Bienal de Luanda.
Reafirmou, neste contexto, a disponibilidade de Angola para continuar a contribuir para a resolução dos conflitos no continente, defendendo soluções africanas para os problemas africanos.
O Presidente apelou também à implementação efectiva da Resolução 2719 do Conselho de Segurança da ONU, sobretudo no que diz respeito ao financiamento previsível e sustentável das operações de apoio à paz lideradas pela União Africana.
Outro ponto central do discurso foi a necessidade de reformar a actual arquitectura da governação mundial.
João Lourenço defendeu uma nova ordem internacional, mais democrática e justa, argumentando que a realidade do mundo mudou profundamente desde a criação do actual sistema de poder internacional, há oito décadas.
O Presidente questionou a manutenção de uma estrutura assente essencialmente no poder dos países vencedores da Segunda Guerra Mundial, destacando a emergência de novos Estados, economias fortes e avanços científicos e tecnológicos.
A defesa de uma ONU mais actuante não é nova na intervenção diplomática de João Lourenço. Na 80.ª Assembleia Geral, em 2025, o Presidente já havia defendido a revitalização das Nações Unidas e o resgate do seu papel activo na governação global.
Na intervenção desta terça-feira, João Lourenço condenou igualmente o terrorismo em todas as suas formas e defendeu o respeito pelo Direito Internacional.
Sobre o conflito israelo-palestiniano, condenou as mortes de civis e denunciou a expulsão de palestinianos das suas casas e terras, através da expansão dos colonatos na Cisjordânia.
O Presidente angolano apelou ainda ao fim do embargo contra Cuba, considerando que a medida agrava as condições de vida da população cubana.
O discurso ocorreu num ano de particular significado para Angola, que assinala 50 anos desde a sua admissão como membro de pleno direito das Nações Unidas, em Dezembro de 1976.
João Lourenço recordou o contexto da Guerra Fria e a experiência de Angola durante o período de conflito, defendendo que os ensinamentos desse passado continuam a orientar a política externa angolana e o compromisso do país com a paz e a reconciliação.
O Chefe de Estado anunciou ainda a inauguração, em Outubro, de um monumento em Luanda dedicado à memória das vítimas dos conflitos políticos ocorridos em Angola desde a independência até ao alcance da paz, em Abril de 2002.
A 81.ª Assembleia Geral decorre sob o tema “Restaurar a Confiança, Gerir a Transformação: uma Organização das Nações Unidas que Produz Resultados para Todos”, colocando no centro dos debates a capacidade da organização de responder aos actuais desafios internacionais.



