Josefa Sacko defende descentralização da FAO para acelerar combate à fome no Sul Global

A embaixadora Josefa Sacko, candidata angolana ao cargo de directora-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), defende a descentralização deste organismo da ONU.
A diplomata advoga pelo reforço estratégico das estruturas regionais e nacionais como via fundamental para acelerar o combate à fome e robustecer o sector agrícola nos países do Sul Global. Em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, a actual embaixadora na Itália e representante permanente junto das Agências das Nações Unidas em Roma, Josefa Leonel Correia Sacko, defendeu uma maior transferência de conhecimento técnico e o reforço das estruturas operacionais da FAO. A diplomata apontou a erradicação da fome como a principal prioridade da sua visão de liderança, destacando que a maior incidência da subnutrição e da insegurança alimentar continua concentrada no Sul Global, que abrange as regiões da América Latina, África, Ásia e Oceânia. Agrónoma de formação, Josefa Sacko sublinhou que a sua vasta experiência acumulada ao longo da carreira vai permitir dedicar especial atenção às nações africanas, advogando para que estas beneficiem do mesmo patamar de desenvolvimento agrícola alcançado por outras regiões do mundo. Como referência de sucesso público, apontou o programa brasileiro “Fome Zero” como um modelo cuja essência pode ser adaptada às realidades locais mais afectadas. “É um programa que surtiu um efeito tão expressivo na população do Brasil que eles conseguiram estancar o problema da fome. Isso também pode ser replicado noutros países, principalmente os africanos, que estão muito afectados com o flagelo da fome”, ressaltou. Para operacionalizar esta visão, a candidata à Direcção-Geral da FAO explicou que uma das principais medidas passa por descentralizar parte das actividades actualmente concentradas na sede da organização, em Roma, robustecendo os escritórios regionais, sub-regionais e nacionais. “Essas estruturas periféricas precisam de ser devidamente apoiadas e capacitadas, de modo a diminuir o fluxo de trabalho na Europa e atender directamente as regiões onde os problemas persistem, aplicando acções concretas”, defendeu. Na ocasião, destacou o papel do Japão na organização como um financiador estratégico de programas para os países necessitados, face à maturidade e autossuficiência do seu próprio sector agrícola. Cooperação entre agências da ONUA também economista defendeu uma maior articulação entre as três agências das Nações Unidas sediadas em Roma — nomeadamente a FAO, o Programa Alimentar Mundial (PAM) e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) —, como via para evitar a duplicação de iniciativas. Cada uma destas instituições, segundo explicou, possui um mandato específico e deve actuar de forma coordenada em benefício dos países do Sul Global. “Temos de trabalhar em conjunto com estas três agências das Nações Unidas para não duplicar os nossos programas, uma vez que a actual fragmentação compromete a eficácia das iniciativas”, pontuou. A diplomata sublinhou, de igual modo, que África necessita de um maior apoio técnico em áreas de vanguarda, como a digitalização e a Inteligência Artificial aplicadas à agricultura. Nesse sentido, Josefa Sacko advogou para que o conhecimento científico actualmente concentrado na sede da organização seja colocado de forma célere ao serviço de todos os Estados-membros. Mulher rural e juventude entre as prioridadesNo conjunto de prioridades apresentadas, a embaixadora Josefa Sacko destacou o apoio à mulher rural e à juventude, uma iniciativa considerada vital para garantir a segurança alimentar, reduzir a pobreza e travar o êxodo rural. A candidata afirmou ser necessário tornar a agricultura mais atractiva para os jovens por meio de incentivos e da modernização do sector, especialmente diante do envelhecimento da população agrícola. Na sua perspectiva, um campo mais moderno permitirá criar empregos e reduzir a migração para os países ocidentais. Outra prioridade apontada prende-se com o financiamento, defendendo que os Estados atribuam maior relevância ao sector nos respectivos programas nacionais de desenvolvimento. Declaração de Kampala vai servir de referênciaJosefa Sacko adiantou que, caso seja eleita para o mandato 2027-2031, pretende levar para a FAO a experiência da Declaração de Kampala, adoptada em 2025 pelos Chefes de Estado e de Governo africanos, que aprovou o novo Plano de Kampala para o período 2026-2036. O documento estabelece como metas principais para o continente o aumento de 45% na produção agro-alimentar, a redução de 50% nas perdas pós-colheita e a triplicação do comércio intra-africano de produtos e insumos agrícolas. A candidata explicou que o Plano está alinhado às Agendas 2030 das Nações Unidas e 2063 da União Africana, servindo de base para a transformação agrícola no continente. Além disso, destacou o combate às alterações climáticas como prioridade estratégica, visando reforçar a resiliência do sector diante dos impactos da variabilidade do clima. Compromisso do país em fortalecer a liderança de África na gestão das organizações internacionais O Governo de Angola lançou oficialmente a candidatura da embaixadora Josefa Sacko ao cargo de directora-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para o mandato 2027-2031. Na ocasião, o ministro das Relações Exteriores, Teté António, sublinhou que este passo representa “o compromisso do país com uma participação africana mais assertiva na direcção das organizações internacionais”. Ao defender uma “visão comum de uma FAO mais forte e mais próxima das necessidades e expectativas dos povos em todas as regiões”, o ministro ressaltou que “este é o momento de promover uma liderança simultaneamente competente, inclusiva e representativa do papel da mulher na sociedade contemporânea”. A campanha tem sido promovida internacionalmente com foco na descentralização da agência, na inovação agrícola sustentável e no apoio aos pequenos agricultores. Trajectória marcante Com mais de 35 anos de experiência em agricultura e desenvolvimento sustentável, Josefa Sacko iniciou o seu percurso como assessora no Ministério do Ambiente — onde actuou como Embaixadora de Boa Vontade para as Alterações Climáticas — e no Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural. Graças ao seu perfil multilíngue e à sólida competência em negociações bilaterais, assumiu a direcção do Gabinete de Intercâmbio Internacional da antiga Secretaria de Estado do Café. A sua projecção internacional consolidou-se ao longo de 13 anos como secretária-geral da Organização Interafricana do Café (OIAC). À frente desta instituição, que reúne 25 países produtores, Sacko notabilizou-se pela criação de Centros Regionais de Excelência na Côte d’Ivoire, Uganda, Camarões e Zâmbia, além de uma forte advocacia pelo empoderamento dos pequenos agricultores. Em Janeiro de 2017, durante a 28.ª Cimeira da União Africana, foi eleita comissária para a Economia Rural e Agricultura. Com a missão de coordenar as estratégias continentais de segurança alimentar e sustentabilidade da Agenda 2063, o seu mandato focou-se em alinhar as políticas da UA às realidades dos Estados-membros. Ao longo da sua trajectória, a engenheira agrónoma e economista tem actuado em articulação directa com grandes blocos e instituições globais, incluindo a OMC, FAO, BAD, AFREXIMBANK, UNECA e comunidades regionais como SADC, COMESA, ECOWAS e EAC. Em 2019, Josefa Sacko foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes na Política Climática pela Apolitical, rede global que reconhece líderes e projectos inovadores focados na transição climática. O seu impacto e liderança no sector agrícola foram igualmente reconhecidos no Reino de Marrocos, onde foi galardoada pelo prestigiado Fórum Agro-Africano. Este prémio internacional celebrou o seu compromisso de longa data com a transformação estrutural da agricultura no continente, com a promoção da resiliência climática e com o fortalecimento das economias rurais africanas, consolidando o seu papel como uma das principais referências em diplomacia agrícola e desenvolvimento sustentável em África.


