Mercenarismo é das principais ameaças à estabilidade e soberania dos Estados

A transformação das actividades mercenárias, a expansão das empresas militares privadas e a crescente privatização da guerra constituem desafios sem precedentes para a paz e segurança internacionais.
O alerta foi feito ontem, em Luanda, pelos participantes da IV Sessão Temática da III Cimeira da Aliança das Civilizações das Nações Unidas (UNAOC). Durante a sessão, realizada sob o lema “Dinâmicas de Conflitos Contemporâneos: Abordando o Impacto das Actividades Mercenárias”, diplomatas, governantes, militares e académicos promoveram uma reflexão profunda sobre este fenómeno. Os especialistas sublinharam que o problema assume contornos cada vez mais sofisticados, representando um dos principais factores de instabilidade global, particularmente em África. Ao intervir na abertura do painel, o representante permanente de Angola junto das Nações Unidas, embaixador Francisco da Cruz, alertou que, embora o mercenarismo tenha evoluído significativamente desde as décadas posteriores às independências africanas, continua a produzir consequências profundamente desestabilizadoras para a soberania dos Estados. O diplomata afirmou que África conhece melhor do que qualquer outra região os efeitos devastadores da utilização de mercenários em conflitos armados. O continente serviu, durante décadas, como palco de intervenções externas destinadas a alterar equilíbrios políticos, influenciar processos internos e garantir o controlo de recursos estratégicos. Francisco da Cruz explicou que estas organizações exploram contextos de instabilidade política e a debilidade das instituições públicas para expandirem a sua influência. Com isso, colocam em causa a soberania nacional, enfraquecem os processos de consolidação da paz e prolongam conflitos que, em muitos casos, poderiam encontrar soluções por vias políticas e diplomáticas. Major-general Agostinho Costa Por sua vez, o major-general das Forças Armadas Portuguesas Agostinho Costa advertiu que as guerras contemporâneas ultrapassam o campo militar tradicional, envolvendo o ciberespaço, a inteligência artificial, a desinformação e a privatização da segurança, factores que obrigam os Estados a reforçar as suas instituições e a preservar o monopólio legítimo do uso da força. Na mesma sessão, o director executivo do Centro Africano para a Resolução Construtiva de Disputas (ACCORD), da África do Sul, considerou que a crescente complexidade dos conflitos e o enfraquecimento das capacidades estatais têm favorecido a expansão das empresas militares privadas, defendendo o fortalecimento dos serviços nacionais de defesa, inteligência e segurança.



