O antigo secretário-geral adjunto da ONU Carlos Lopes classificou Mário Pinto de Andrade como um “intelectual africanista de identidade intacta”, cuja filosofia se reflectiu, na época, para despertar nos jovens a mentalidade crítica e o sonho da liberdade.
Ao intervir, sexta-feira, via Zoom, na Conferência Especial em homenagem ao 98.º aniversário natalício do nacionalista angolano, organizado pela Academia Angolana de Letras, Carlos Lopes referiu que Mário Pinto de Andrade não era apenas um político, ensaísta e homem de arte, foi sobretudo um autêntico defensor do pensamento crítico, em torno da dignidade africanista.
Nesta linha de pensamento, o antigo secretário-geral adjunto da ONU acrescentou que o nacionalista angolano impulsionou a construção das mentalidades em torno da identidade cultural e política africana, cujos feitos se reflectiram amplamente na construção de um conhecimento sobre o renascimento da negritude.
Mário Pinto de Andrade, ressaltou Carlos Lopes, era um crítico político que defendia a narrativa linguística. Na sua visão, os idiomas africanos não eram apenas uma manifestação folclórica, mas sim um verdadeiro instrumento de história, de filosofia e, sobretudo, de uma "identidade inata".
Na perspectiva do conferencista, a narrativa da linguística africana fez nascer os movimentos anticolonialistas e, posteriormente, as organizações nacionalistas das colónias portuguesas que procuraram estabelecer uma plataforma entre as mesmas para lutarem contra o regime colonial.
Mário Pinto de Andrade, prosseguiu Carlos Lopes, defendia que era necessário demonstrar que as sociedades africanas, bem como as organizações internacionais, que Portugal não administrava províncias ultramarinas, mas territórios com identidades próprias.
Mário Pinto de Andrade sabia que a formação de um pensamento intelectual africano não dependia apenas da existência de grandes infra-estruturas, mas sim em formar pessoas, criar instituições académicas, nas quais os jovens africanos tivessem acesso a redes internacionais de conhecimento.
Foi nesse quadro que muitos, tal como “eu conseguimos bolsas para dar continuidade aos estudos universitários”, abrindo a concepção do pensamento à volta do processo de descolonização das sociedades sob jugo do sistema português.
Segundo Carlos Lopes, Mário Pinto de Andrade, mais do que panafricanista, foi igualmente produtor de cinema, investigador, ensaísta, editor, crítico literário, historiador das ideias políticas e redes de intelectuais.
Conservar intelectualidade
Para a professora e investigadora santomense Inocência Mata, homenagear Mário Pinto de Andrade significa não apenas repetir aquilo que pensou. É, sobretudo, continuar a dar ênfase ao seu “gesto intelectual” de interrogar, inclusivamente, as palavras que “julgámos conhecer”, nomeadamente a independência, a nação, a libertação, a cultura e a memória da descolonização.
Inocência Mata, também ensaísta, disse ser possível conquistar a independência política e conservar a hierarquia social e cultural que Mário Pinto de Andrade sustentava, quer na literatura, como nos movimentos pan-africanistas.
O nacionalista angolano, ressaltou Inocência Mata, estava consciente que a melhor forma de garantir a soberania identitária africana era promover no seio da juventude o pensamento crítico, cujos feitos tivessem resultados nos movimentos de libertação.
De acordo com a ensaísta, Mário Pinto de Andrade contribuiu para a construção política do nacionalismo não só angolano como também para articulação internacional dos movimentos nas colónias portuguesas.
Amar África
Durante o evento, que decorreu no Memorial Dr. António Agostinho Neto, a filha de Mário Pinto de Andrade, Henda de Andrade, referiu que, apesar da distância, ama África, porque desde muito cedo lhe foi incutida o pensamento crítico, bem como o valor da liberdade.
Henda de Andrade, ao fazer um breve depoimento via Zoom, ressaltou que homenagear o nacionalista angolano significa, na prática, construir uma memória de um político que foi comprometido com a verdade, a justiça e o belo.




