Presidenciais portuguesas: eleitores em Angola defendem voto electrónico contra a abstenção

Eleitores portugueses em Angola afluiram em grande número às urnas para contrariar a abstenção e defendem que a introdução do voto electrónico poderia ajudar a mobilizar os votantes.
Pelas 10h00 deste Domingo, já vários eleitores acorriam ao Camões – Centro Cultural Português, na emblemática Avenida de Portugal, em Luanda, fazendo antever uma participação elevada.
Marisa Moroso, membro do Conselho Consultivo do Consulado português em Luanda, faz parte de uma mesa de voto e disse que a votação “está a correr muito bem”, com uma adesão superior à de Sábado, salientando que os votos antecipados “foram o dobro” dos registados na primeira volta.
Na sua opinião, a maior afluência não se deve tanto ao facto de eleitores portugueses não conseguirem votar em Portugal devido às condições meteorológicas adversas, mas sobretudo por se tratar de uma segunda volta mais disputada.
“Acho que têm medo dos resultados, é a minha opinião”, afirmou.
Para contrariar a abstenção, defende que o voto electrónico “faria toda a diferença”, sobretudo para quem reside fora de Portugal.
“A legislação foi muito feita para a Europa, e as comunidades, principalmente em África, mas não só, têm muitas dificuldades em termos de mobilidade”, salientou.
“Não é fácil, Angola é enorme, há portugueses de Cabinda ao Cunene e nem todos conseguem chegar a Luanda ou Benguela”, acrescentou, lembrando que, apesar de fora de Portugal a votação decorrer em dois dias - Sábado e Domingo - os constrangimentos mantêm-se.
A mesma solução poderia, no seu entender, ser ponderada também para Portugal. “As alterações climáticas vêm mostrar que o voto electrónico, até em Portugal, faria diferença (…), facilita imenso”, sublinhou, acrescentando: “É uma luta nossa”.
Marisa Moroso, também membro do Conselho das Comunidades Portuguesas, disse que já foram apresentadas propostas nesse sentido e realizadas reuniões com as autoridades portuguesas, mas reconheceu que “não é um processo fácil”, nomeadamente devido às dificuldades de acesso à Internet.
Também Márcia Pinto defende o voto electrónico, relatando que se deslocou ao local de voto, mas não conseguiu votar.
“Eu vinha exercer o meu direito de voto, queria votar, mas afinal, como não alterei a morada fiscal, não consigo votar aqui. Tenho de votar onde tenho a minha residência fiscal, que é no Barreiro”, disse à Lusa, lamentando a falta de informação.
“Se tivesse tido a informação antes, teria feito alguma coisa. Acho que o voto electrónico ia ajudar bastante, porque permitiria muito mais pessoas votarem. Há muitas pessoas que não têm possibilidade de vir ao consulado e então votaríamos a partir de casa. Acho que era uma excelente oportunidade para todos exercermos este direito”, acrescentou.
Referindo-se à situação em Portugal, notou que o país “atravessa uma calamidade” e que há pessoas que não conseguem sequer sair de casa.
“Se pudessem votar a partir de casa, electronicamente, ia facilitar e acredito que os números da abstenção iriam diminuir consideravelmente”, afirmou.
Já Luís Carvalho entende que todos devem exercer este direito “conquistado”.
“As pessoas programam-se e vêm, como tudo na vida, quem quer faz. São direitos conquistados”, reforçou, pedindo que não se usem “pretextos” e lembrando que em outras eleições também há elevados níveis de abstenção.
Isabel Apolinário, residente em Angola há 12 anos, acorreu igualmente esta manhã às urnas, como diz fazer sempre.
“Acho que é um dever, tanto que lutámos para poder votar, [sobretudo] nós, mulheres, foi uma luta ainda maior. Não temos o direito de não vir votar”, realçou.
Quanto à situação em Portugal, teme que a abstenção venha a ser elevada, não porque as pessoas não queiram votar, mas porque não podem, admitindo que as eleições deveriam ter sido adiadas, tendo em conta que uma parte significativa do país “está debaixo de água”.
Em Angola, funcionam assembleias de voto nos Consulados-Gerais de Portugal, em Luanda e Benguela.
A área de jurisdição do Consulado-Geral de Portugal em Luanda conta com 13.328 eleitores inscritos, estando inscritos em Angola pouco mais de 114 mil portugueses.
O Consulado-Geral de Portugal em Luanda funciona ainda como assembleia de apuramento intermédio para algumas secções de voto no continente africano, onde o número de eleitores inscritos é inferior a 100, como é o caso da Guiné Equatorial.
Por esse motivo, o apuramento final dos resultados em Luanda, bem como o total de Angola, só será efectuado e divulgado após a recepção desses votos, no decurso da próxima semana.
Mais de 11 milhões de eleitores foram este Domingo chamados a votar na segunda volta das presidenciais portuguesas para eleger o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, em eleições realizadas com previsão de mau tempo, chuva e vento.
O vencedor foi António José Seguro, com 66,82 por cento dos votos. André Ventura obteve 33,18 por cento.
No primeiro sufrágio, Seguro obteve 31,1 por cento dos votos e Ventura 23,52 por cento, segundo o edital do apuramento geral dos resultados.


