A juíza conselheira presidente do Tribunal Constitucional, Laurinda Prazeres, enalteceu, ontem, em Luanda, o contributo do juiz conselheiro Victorino Hossi, falecido por doença. O reconhecimento foi expresso no livro de condolências no final da cerimónia de homenagem ao juiz conselheiro Victorino Hossi, em que destacou os ensinamentos do magistrado e os momentos partilhados.
Na mensagem, Laurinda Prazeres apelou à família e aos colegas a manterem viva a memória de Victorino Domingos Hossi. “Peço-vos que mantenham viva a memória do vosso amado filho. Lembrem-se dele pela grandeza da sua pessoa: um homem de bom trato, de bom humor e de verdadeira nobreza de carácter”, lê-se na mensagem.
Ao intervir na cerimónia, Laurinda Prazeres destacou a personalidade do magistrado. “O conselheiro Hossi tinha uma presença muito própria. Eu diria que tinha uma personalidade forte e marcante. Era um homem de poucas palavras, de trato afável e sereno, mas havia, no seu olhar silencioso, uma forma particular de estar entre nós. Um olhar que observava, que escutava e que sentia. E, sem muitas palavras, transmitia-nos a serenidade e a experiência de um homem culto”.
A magistrada considerou o desaparecimento do juiz conselheiro uma grande perda para o Tribunal Constitucional. “Perdemos o juiz conselheiro Victorino Hossi. Perdemo-lo de forma abrupta, sem aquele aviso que a vida, por vezes, tem a delicadeza de nos conceder".
"Estávamos a contar com ele. Continuávamos a contar com ele esta semana. E é essa a forma mais crua da dor: não a de quem parte, mas a de quem fica a contar com a pessoa”, destacou.
Qualidades do magistrado
Laurinda Prazeres afirmou que o magistrado tinha uma qualidade que nenhum currículo regista: estava presente.
“Estava presente nos grandes momentos e, sobretudo, nos pequenos. Apesar dos cuidados que a sua saúde inspirava, o estado das estradas nacionais não o coibiu de, por via terrestre, percorrer Luanda, Porto Amboim, Benguela, Lubango, Gambos e outros pontos do país para estar presente no nosso jango da Constituição”, disse.
Na ocasião, o juiz conselheiro do Tribunal Constitucional Simão Victor realçou que Victorino Domingos Hossi deixa um legado difícil de ser igualado.
“Foi, talvez, o reconhecimento maior de uma vida pautada pelo rigor jurídico, pela integridade e pelo compromisso inabalável com Angola”, disse.
Simão Victor acrescentou que o malogrado “parte, mas deixa atrás de si um legado que dificilmente será igualado: o de um homem que esteve à mesa das negociações de paz; que ajudou a desenhar a política comercial de Angola; que contribuiu para a doutrina constitucional e eleitoral do país; e que, até ao último dia, continuou a servir a Justiça angolana com a mesma dedicação de sempre”.
Segundo o magistrado, Angola perdeu um dos seus filhos mais preparados e mais entregues à causa nacional.
Para Simão Victor, fica o exemplo de um jurista e de um homem de Estado que soube colocar o conhecimento e a experiência ao serviço da paz, do desenvolvimento e da consolidação institucional do continente.
Mensagens dos funcionários
Em nome dos funcionários do Tribunal Constitucional, o técnico Carlos Veiga afirmou que o juiz Victorino Hossi era já uma personalidade reconhecida quando passou a integrar a composição dos juízes conselheiros do Tribunal Constitucional de Angola.
“Desde logo, chamou a atenção pela qualidade da sua alocução: directa, simples e profundamente comprometida com os valores pátrios, deixando antever uma trajectória de excelência”, assinalou.
Valquíria Sampaio, que falava em representação do gabinete do juiz conselheiro Victorino Domingos Hossi, enalteceu as qualidades do magistrado, enquanto em vida.
“Um verdadeiro pai, aquele que aconselhava não apenas sobre o trabalho, mas também sobre a vida. Aquele a quem recorríamos, quando um problema pessoal nos pesava, sabendo que, do outro lado da secretária ou do telemóvel, iríamos encontrar não o superior hierárquico, mas um amigo disposto a ouvir”, disse.
Já o amigo José Octávio Serra Van-Dúnem, apelou à família e aos quadros do Tribunal Constitucional a manterem vivas as qualidades do magistrado. “Peço que cada um de vocês guarde na alma aquilo que ele tinha de melhor: a capacidade de saber doar-se sem cobrar”, disse.
O académico afirmou que, apesar das diferenças entre ambos, se tornaram referências nas respectivas actividades. “Tínhamos dife- renças, essas diferenças eram notadas e, ao mesmo tempo, passámos a ser uma referência. Porque duas pessoas de mundos diferentes, estou a falar de mundos políticos diferentes, não passaram a existir uma sem a outra”, disse.
Adão de Almeida exalta empenho à causa pública
O presidente da Assembleia Nacional, Adão de Almeida, realçou, ontem, o empenho, “desde muito cedo”, de Victorino Domingos Hossi pela causa pública, com ênfase à sua integração ao Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN) como ministro do Comércio.
Na nota de condolências, o líder parlamentar recorda que o malogrado, eleito juiz conselheiro do Tribunal Constitucional na 1.ª Sessão Legislativa da 5.ª Legislatura da Assembleia Nacional, destacou-se pelo seu engajamento e, de igual modo, pela qualidade do seu trabalho na Corte Constitucional.
No documento, endereçado à presidente do Tribunal Constitucional, Laurinda Prazeres, Adão de Almeida sublinha ter sido “com profunda tristeza e consternação que a Assembleia Nacional e eu, pessoalmente, recebemos a infausta notícia do passamento físico do venerando juiz conselheiro do Tribunal Constitucional Dr. Victorino”.
Homenagem no Ex-R20
No período da noite, juízes conselheiros do Tribunal Constitucional, com destaque para a presidente, Laurinda Prazeres, magistrados, académicos e políticos de diferentes formações partidárias, renderam homenagem a Victorino Hossi.
A cerimónia decorreu no Quartel-general do Exército, Ex-R20, onde se encontra a urna com os restos mortais em câmara ardente até às 7 horas de hoje, de onde deverá partir para o cemitério de Santa Ana.




