Rafael Marques: "Caso russos é um teatro político"

O ativista Rafael Marques considera que o julgamento dos cidadãos russos em Angola é um "expediente político" para agradar ao Ocidente. E também associa o calendário do processo às ambições de Higino Carneiro no MPLA.
O Ministério Público angolano pede 18 anos de prisão para os dois cidadãos russos que estão a ser julgados por terrorismo. Para os dois cidadãos angolanos envolvidos no processo, as penas requeridas são de 10 e 15 anos, segundo o Novo Jornal.
Em entrevista à DW, o ativista angolano Rafael Marques afirma não ter dúvidas de que se trata de um processo político que visa passar uma mensagem anti-Rússia ao Ocidente.
A fase das alegações finais decorre justamente numa altura em que o político Higino Carneiro, também citado no "caso russos", dá um passo para chegar à liderança do MPLA, o partido no poder em Angola. Para Rafael Marques, não se trata de mera coincidência.
DW África: Considera que este julgamento é um processo político?
Rafael Marques (RM): O processo dos russos é um processo político e é um processo que visa demonstrar que temos aqui hoje um regime antirrusso e que precisa de todo o apoio do Ocidente para se manter no poder, mesmo quando sabemos claramente que o Presidente João Lourenço termina o seu segundo mandato e não deve continuar como Presidente. É um expediente político, é um teatro político.
DW África: O "caso russos" volta ao tribunal numa altura em que um dos processos de Higino Carneiro, o pré-candidato à liderança do MPLA, também teve desenvolvimentos. Isso faz suspeitar que este caso visa acelerar ou cortar as ambições políticas a Carneiro? É essa leitura que se pode fazer?
RM: É importante que os casos de corrupção sejam julgados, mas não deve haver discriminação. E esta coincidência da apresentação da candidatura de Higino Carneiro com o processo que estava em banho-maria há mais de seis anos é bastante suspeita e demonstra a instrumentalização do poder judicial para se resolverem ou se afastarem pessoas de corridas políticas. E isto é que é péssimo. É fundamental que a justiça seja para todos e seja imparcial. Não se está a dizer que não deve haver processos judiciais, mas a forma como se está a usar o sistema judicial para perseguir uns e proteger outros é inaceitável.
Radar DW: A guerra pela liderança do MPLA
To view this video please enable JavaScript, and consider upgrading to a web browser that supports HTML5 video
DW África: A via diplomática nunca foi uma opção para resolver este caso?
RM: Caso houvesse uma tentativa de golpe de Estado orquestrada pelos russos em Angola ou coisa parecida, Angola teria cortado relações diplomáticas com a Rússia e não o fez, nem sequer chamou o seu embaixador de volta. Agora, é muito estranho que se venha a dizer que estes indivíduos pertencem ao grupo, o antigo grupo Wagner, que agora são os Afrika Korps, que todo mundo sabe que é uma organização do Ministério da Defesa russo e o Presidente João Lourenço continua a manter na Presidência da República um general russo como assessor principal. É um absurdo e nunca se esclareceu essa situação - já denunciei esta situação publicamente.
Então, não é uma questão de resolução diplomática, é uma questão de oportunismo político, de tentar mostrar ao Ocidente que aqui em África, onde a Rússia está a tentar fazer mais avanços, há um país, há um Presidente que quer correr com os russos e precisa do apoio do Ocidente e esse apoio deve ser para o Presidente ou os seus manterem o poder. É assim que o MPLAestá no poder há mais de 50 anos.



