Luanda – A reconciliação nacional e a reparação da memória das vítimas dos conflitos políticos em Angola estiveram, esta quinta-feira (30), em debate, em Luanda, numa iniciativa promovida pela “Oficina do Conhecimento”.
Luanda – A reconciliação nacional e a reparação da memória das vítimas dos conflitos políticos em Angola estiveram, esta quinta-feira (30), em debate, em Luanda, numa iniciativa promovida pela “Oficina do Conhecimento”.
Durante o debate, os intervenientes defenderam que o processo de reconciliação nacional deve continuar a valorizar a memória das vítimas dos conflitos políticos em Angola, bem como garantir às famílias o direito de realizar funerais condignos dos seus entes queridos.
O membro da CIVICOP, Luís Jimbo, considerou que o pedido de desculpas apresentado pelo Presidente da República, João Lourenço, pelos acontecimentos ocorridos no passado constitui um reconhecimento do Estado perante as famílias das vítimas.
Referiu que, no âmbito do programa de homenagem às vítimas dos conflitos políticos, várias famílias têm recebido os restos mortais dos seus entes queridos para a realização de funerais condignos, bem como certificados de óbito emitidos pela CIVICOP.
Segundo Luís Jimbo, estes procedimentos permitem às famílias preservar a memória dos seus antepassados e representam o reconhecimento do Estado de que essas pessoas perderam a vida em circunstâncias relacionadas com a história do país.
Acrescentou que a CIVICOP tem igualmente acompanhado a construção de campas definitivas para os restos mortais já entregues às famílias, considerando o processo fundamental para a estabilidade espiritual e o conforto dos familiares.
“Estamos, no âmbito da CIVICOP, a cumprir um ritual que, para nós, enquanto africanos, é fundamental para a estabilidade espiritual entre aqueles que partiram e aqueles que estão”, afirmou.
Por sua vez, o reverendo Vladimir Agostinho, secretário-geral do Conselho de Igrejas Cristãs em Angola (CICA), destacou o papel das igrejas no processo de perdão e reconciliação nacional.
Disse que as igrejas acompanharam os períodos conturbados da história de Angola, desde a independência nacional, passando pela guerra civil e pelos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, até à conquista da paz, em 2002.
Considerou que o processo de exumação e entrega dos restos mortais tem permitido às famílias realizar o luto e enterrar condignamente os seus entes queridos, defendendo que os familiares devem estar atentos às listas divulgadas pela CIVICOP.
O reverendo Vladimir Agostinho apelou à continuidade do trabalho de perdão e reconciliação, sublinhando que o desenvolvimento do país deve ser acompanhado pela cura das feridas deixadas pela história.
“É importante construirmos grandes obras, sim, mas também precisamos curar as almas, precisamos curar os nossos corações. Há muita gente magoada, ferida, e nós precisamos de nos reconciliar com a nossa história”, afirmou.
O padre Constantino Epalanga defendeu, igualmente, a necessidade de “curar a memória” como etapa importante para o processo de reconciliação nacional.
Explicou que as instituições religiosas têm recebido pessoas que perderam familiares durante os períodos de conflito e que, ao longo de décadas, continuam à procura de respostas e de formas de superar as feridas deixadas pelos acontecimentos.
Segundo o sacerdote, a criação de espaços de escuta permite às vítimas e familiares relatarem as suas experiências e contribuírem para a recuperação da memória individual e colectiva.
Já o general Silva Mateus, membro ligado à Fundação 27 de Maio, considerou que o processo da CIVICOP ainda não está totalmente concluído, existindo questões que, segundo disse, aguardam resposta dos órgãos de direcção.
Entre as preocupações apontadas, mencionou a discussão sobre eventuais indemnizações aos presos políticos e familiares das vítimas, bem como outras questões relacionadas com o processo de reconciliação.
Referiu-se também à existência de dificuldades relacionadas com a identificação dos restos mortais, explicando que o número de pedidos apresentados pelas famílias é superior ao de pessoas que disponibilizaram amostras de ADN para o respectivo cruzamento.
O general Silva Mateus defendeu que o processo deve continuar a responder às preocupações das famílias, tendo destacado igualmente a importância das iniciativas de preservação da memória das vítimas do 27 de Maio.
A CIVICOP (Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos) é o órgão do Estado angolano responsável por coordenar as acções de localização, exumação, identificação e homenagem às vítimas dos conflitos políticos no país. LDN/SC




