Sexta vítima identificada pela CIVICOP é sepultada

Os restos mortais de Isaías João, conhecido pelo nome de guerrilha “Lágrimas do Povo”, repousam, desde sábado, no cemitério do Benfica, em Luanda, quase meio século após o seu desaparecimento.
A cerimónia fúnebre contou com a presença de familiares, membros da Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), representantes da Associação 27 de Maio e entidades religiosas. Isaías João é a sexta vítima identificada pela CIVICOP, após exames de compatibilidade genética realizados pelo Serviço de Investigação Criminal, que confirmaram o ADN das ossadas exumadas da vala comum do antigo Cemitério da Mulemba, vulgo “14”. Os restos mortais de outros cinco cidadãos identificados no mesmo processo haviam sido sepultados na semana anterior, também no Benfica, num esforço que o Executivo e os sobreviventes consideram crucial para a consolidação da reconciliação nacional. As exéquias foram marcadas por profunda comoção, cânticos e pelo reconhecimento do longo caminho trilhado pelas famílias até alcançarem uma despedida digna. O sepultamento, realizado a pedido dos familiares sete dias após a entrega oficial da urna, foi antecedido por uma missa de corpo presente presidida pelo reverendo Júlio Jacinto, da Igreja Cristã Evangélica Pentecostal de Angola. Trajectória militar e profissionalNo elogio fúnebre, lido pelo sobrinho Maiza Bumba, a família sublinhou a trajectória profissional, religiosa e militar de Isaías João, nascido a 28 de Março de 1948, no município da Samba, em Luanda. Segundo o familiar, o homenageado foi incorporado nas Forças Armadas Portuguesas em 1969 e, após cumprir dois anos de serviço, regressou à vida civil para trabalhar como assistente comercial numa relojoaria. Posteriormente, ingressou nas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), altura em que adoptou o nome de guerra “Lágrimas do Povo”. O malogrado recebeu formação militar no Congo-Brazzaville, regressando ao país antes da proclamação da Independência Nacional para exercer funções na Direcção de Segurança do Estado, no município de Sanza Pombo, província do Uíge. Mais tarde, foi transferido de volta a Luanda, onde permaneceu até ao seu desaparecimento, a 27 de Maio de 1977, aos 29 anos, deixando seis filhos. “Este funeral representa o cumprimento de um dever moral do Estado e da família. Este momento devolve dignidade ao nosso tio e traz algum conforto à nossa família, que viveu 49 anos sem saber onde repousavam as suas ossadas”, declarou Maiza Bumba, com a voz embargada. Na mesma cerimónia, uma mensagem lida pelo conselheiro Domingos Kiwato, em representação da Associação 27 de Maio, louvou a iniciativa do Executivo em garantir um sepultamento digno às vítimas dos conflitos políticos. Esperança da famíliaA família continua com esperança em receber as ossadas de um outro irmão, Simeão João, desaparecido durante o mesmo conflito armado, após serem detidos na cadeia de São Paulo, em Luanda. Mais de 20 restos mortais sepultados até ao momentoA Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP) já identificou e sepultou, até ontem, com o apoio dos familiares, os restos mortais de 27 vítimas de conflitos políticos. O balanço foi apresentado pelo porta-voz da instituição, Manuel Halaiwa, após o funeral de Isaías João “Lágrimas do Povo”, realizado no Cemitério do Benfica, em Luanda. Segundo o responsável, do total de cidadãos identificados a partir das ossadas exumadas da vala comum do antigo Cemitério da Mulemba, 25 receberam sepultura digna no Cemitério do Benfica, um no Cemitério do Alto das Cruzes, e outro no campo santo de Sumba Futa, na localidade das Mabubas, província do Bengo. Manuel Halaiwa reiterou que a CIVICOP prossegue com a missão de localizar e identificar vítimas de todos os conflitos políticos ocorridos em Angola entre 11 de Novembro de 1975 e 4 de abril de 2002. Nesse sentido, renovou o apelo para que as famílias doem amostras biológicas (material genético). O porta-voz garantiu que todos os familiares de desaparecidos, residentes no país ou no exterior, contarão com o apoio logístico e técnico da Comissão, reforçando que cada identificação representa um passo crucial rumo à consolidação da reconciliação nacional.


