Tornou-se a água um negócio em Porto Amboim?

Em Porto Amboim, os moradores afirmam que há falta de vontade política para resolver o problema da escassez de água. A administração local decidiu vender água, mas garante que não se trata de um negócio.
Banhado por dois grandes rios, nomeadamente o Longa e o Keve, o município angolano de Porto Amboim padece, há já muito tempo, de uma grave escassez de água. Sem soluções à vista, a Administração Municipal de Porto Amboim decidiu vender água à população, quando a deveria distribuir de forma gratuita.
A denúncia é de Carlos Patrício Kitumba, secretário provincial do PRA-JÁ Servir Angola no Cuanza-Sul: "A falta de água fez com que a Administração Municipal de Porto Amboim entrasse no negócio com a cisterna de água para vender a água por cisterna a 20 mil. Quer dizer que o indivíduo que deveria resolver o problema também está no negócio. As autoridades competentes daquele município destinaram o camião na venda de água, também estão no negócio."
"Quem não dá água quer matar"
Carlos Patrício Kitumba afirma que, se for necessário, poderá haver uma rebelião semelhante à de 4 de Fevereiro de 1961, que marcou o início da luta armada de libertação nacional. "Se para resolvermos o problema da água tivermos de nos rebelar, será necessário mais um 4 de Fevereiro, só que, desta vez, não será 4 de Fevereiro de 1961, mas sim de 2026", avisa.
Para o secretário provincial, "é preciso pôr o dedo na ferida e correr com os governantes". "Quem não te dá água quer te matar. Que tipo de saúde queres dar às pessoas sem água? Portanto, é um assunto sério", denuncia.
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A denúncia é corroborada por um morador, Jerry Neto, que também criticou a atuação da administração, afirmando que o órgão que deveria zelar pelo bem-estar da população procura obter algum lucro com a venda de água que deveria ser distribuída gratuitamente.
"Querem tirar algum lucro com isso, e não é a primeira vez que têm um carro. Agora, esse carro vende com intuito de melhorar ou prejudicar? Vende cobrando caro ou barato? Eles estão a cobrar caro, logo não estão a ajudar", critica.
No seu entender, a "administração não foi feliz em fazer esse tipo de escolha para a população de Porto Amboim". "Espero que a administração seja séria e tenha mais meios e mais mecanismos para ver se consegue tirar a população desta calamidade que é a seca", acrescenta.
"População está a sofrer"
Outro morador da cidade de Porto Amboim, o Sr. Tomás, diz que se trata de "falta de vontade política e de um sentido de negócio", uma vez que aqueles que deveriam resolver o problema da água no município são os mesmos que vendem água à população.
"Uma administração que vende água ao seu público não está preocupada em resolver o problema. Como é que alguém que deveria fornecer água a vende?", questiona, acrescentando que a "justificação da administração é que a venda serve para fazer a manutenção do próprio camião".
Contudo, neste caso, continua, "não vale a pena ter esse meio, porque a administração é a representante máxima do Estado na resolução dos problemas do povo". "Quem deve garantir a água é a administração. Não pode vender água, tem de arranjar mecanismos para que a água chegue às casas dos cidadãos", argumenta, sublinhado que a "população está a sofrer e a água está cara".
O administrador municipal de Porto Amboim, Adérito Jorge, confirma que a sua administração está a vender água, não como negócio, mas sob a forma de comparticipação, ao preço de 20 mil kwanzas, e justifica a medida com a necessidade de manutenção do camião.
"A Administração Municipal de Porto Amboim decidiu cobrar alguma comparticipação. O preço normal da cisterna de água em Porto Amboim custa entre 30, 35 mil kwanzas ou até mesmo 40 mil kwanzas. Com o nosso camião, o cidadão paga 20 mil kwanzas", explica, argumentando que "para as famílias carenciadas e nas localidades mais recônditas, a administração leva água de forma gratuita".
Cobrança visa manutenção de camião
Adérito Jorge acrescenta: "Tais comparticipações que estamos a fazer são para as viaturas: um dia vai faltar pneus, vai faltar combustível, por isso é necessário que o cidadão comparticipe na manutenção do camião".
O administrador reconhece que a situação do município é complicada no que diz respeito à água e diz que, nesta altura, está sem capacidade - dos 133 mil habitantes que o município tem, só 1.200 pessoas beneficiam de água, mas de forma intermitente.
"Porto Amboim tem cerca de 133 mil habitantes, dos quais aproximadamente 70 a 80 mil vivem na cidade e nos bairros periféricos. Nesta altura, com o sistema que temos instalado, só temos capacidade para cerca de 1.400 a 1.600 ligações domiciliárias", aponta, reconhecendo que se trata de uma "situação bastante crítica, bastante difícil para os habitantes, se tivermos em conta que uma cisterna de água em Porto Amboim custa entre 35 a 40 mil kwanzas". "Tendo em conta o nível de vida atual, é um grande desafio que temos em Porto Amboim", conclui.
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