União na UNITA: Tem de ser "na prática e não no discurso"

A UNITA terminou o congresso a repetir a doutrina de "união e coesão", mas o que foi feito, de facto, para juntar a família dos "maninhos"? Não se sabe como serão saradas as feridas e afastam hipóteses de revide.
Os "maninhos" entraram para o XIV Congresso com sinais de fissuras, com dois candidatos a disputar a liderança da UNITA. Mas o partido saiu com a vontade de mudar o cenário: Diz que aposta agora na união e coesão.
Da intenção à prática, qual é a distância? O politólogo Agostinho Sikatu aponta a inclusão a ser trabalhada pela liderança da UNITA como determinante para se alcançar a meta. "As eleições em si não bastam para criar a coesão e união, mas são um passo significativo para que tal aconteça", diz.
E acrescenta: "Os resultados e a forma como daqui para frente a UNITA vai se compor e como cada um vai se disponibilizar para poder trabalhar com a direção do partido e o partido também tomar iniciativas no sentido de aproximar aqueles que têm visões diferentes da direção".
Adalberto Costa Júnior foi reeleito líder da formação, deixando o filho do fundador da UNITA para trás.
"Não pode haver retaliação"
O correligionário Menezes Domingos não assume o revés de Rafael Massanga Savimbi como derrota, mas sublinha, por outro lado, que a UNITAnão é propriedade única dos Savimbi, desvalorizando as fissuras internas. Sobre eventuais rancores e retaliações contra Rafael afirma: "Na escola de Savimbi aprendemos que não pode haver retaliação, porque a UNITA só vem perdendo e vai perder nesta caso."
Ainda assim, o líder reeleito entende que "a UNITA está com uma vitalidade extraordinária", pese embora a imagem que passa seja contrária. Pouco antes do congresso, Menezes Domingos assumia "ruturas" no partido, destacando que "muitos quadros de proa da UNITA e militantes já não se reveem na liderança de Adalberto Costa Júnior".
O politólogo Agostinho Sikatu diz que a filosofia do partido deveria ser de transformar limões em limonada: "As diferenças internas não podem ser o problema em si, devem ser aproveitadas para enriquecer o processo democrático".
A UNITA, defende, "precisa mostrar a sociedade que está reconciliada e consolidada. Isto, na prática e não no discurso. Precisa mostrar, por exemplo, que as partes desavindas estão aqui a trabalhar, estão juntas e a falar a mesma língua."
Reconciliação antes de almejar a Cidade Alta
O alcance desse desiderato é primordial para que o sonho do "Galo Negro" se concretize: chegar ao palácio presidencial em 2027, lembra Sikatu. Essa é uma luta em que o partido entra em desvantagem, já que o MPLA tem a máquina nas mãos, afirma ainda o politólogo.
Insistir numa coligação eleitoral, desta vez mais ampla, é a aposta da UNITA, embora anteriormente iniciativa semelhante não a tenha colocado nem nas mediações do palácio. Ainda assim, o analista entende que uma coligação talvez fosse a melhor opção.
"Apesar de ter maiores riscos, pois os partidos coligadosprofessam ideologias completamente diferentes, tivemos em Angola experiência de coligações que, no início, correu bem" Mas como são coligações eleitorais, no fim do período de mandato, a situação não foi tal como o esperado", recorda.
O que melhorar nas coligações?
Incluir a sociedade civil é uma possibilidade aventada pelo partido, cooptando os seus integrantes para cargos de deputados independentes, o que não é novidade. Porém, há a apontar choques de cohabitação tendo, por exemplo, como esteira contrastes ideológicos e incumprimento de disciplina partidária, recorda Sikatu.
Sobre a possibilidade de se juntarem à sociedade civil enquanto grupo, o académico lembra que "a hipótese é quase nula pelo seguinte: as organizações da sociedade civil não concorrem às eleições, a lei não permite isso. A lei permite que os partidos políticos concorram como grupos de cidadãos. Mas pode, sim, a UNITA coligar-se, e a lei permite isso, convidar membros da sociedade civil para integrar as suas listas de deputados".
Sikatu entende, contudo, que os moldes de coligação têm de ser melhor trabalhados. Ainda assim, a UNITA está confiante na vitória, como sempre.
"Não creio que algum angolano vá votar no MPLA se não na UNITA, a UNITA tem vocação para o poder", acredia Menezes.
ACJ: "O MPLA não conhece a Constituição de Angola"
To view this video please enable JavaScript, and consider upgrading to a web browser that supports HTML5 video


