A história de João Caiumba é marcada pela determinação e pela vontade de transformar as dificuldades em oportunidades de aprendizagem e crescimento. Desde a infância, manifestava interesse pelo ensino, assumindo, frequentemente, o papel de professor nas brincadeiras com outras crianças, uma experiência que contribuiu para despertar nele a vocação que viria a orientar a sua escolha profissional.
Ao longo da formação académica, enfrentou obstáculos relacionados com a sua condição física, além de momentos de desânimo provocados por comentários que o afectavam emocionalmente. Apesar das dificuldades, garante que nunca considerou seriamente abandonar os estudos, mantendo como objectivo concluir a formação e preparar-se para o exercício da profissão.
“Desistir nunca foi minha opção. Não foi fácil, mas sempre soube que o único caminho que tinha de seguir era terminar o ensino médio”, afirmou.
Pai de seis filhos e muito ligado à família, o professor considera que o apoio dos familiares foi determinante para ultrapassar as dificuldades. Recorda, igualmente, a solidariedade dos colegas, que, em diferentes momentos do percurso escolar, disponibilizavam-se para o procurar e acompanhá-lo até à escola, na província vizinha da Huíla.
Para João Caiumba, estes gestos demonstram que a solidariedade pode ajudar a reduzir as barreiras que dificultam o acesso das pessoas com deficiência à educação e a outros serviços essenciais.“Eu não sei se sou eu que transmito essa confiança às pessoas ou se são elas que rapidamente se adaptam a mim, mas a verdade é que não me sinto definido pela deficiência. As pessoas tratam-me primeiro como pessoa e depois dão-me a ajuda necessária”, explicou.
O docente entende que a inclusão deve acontecer de forma natural, sem preconceitos nem atitudes que reduzam o indivíduo à sua condição física. Actualmente, exerce a profissão numa escola de ensino especial, em Moçâmedes, onde considera que o amor pela actividade e a formação contínua são fundamentais para responder às necessidades específicas dos alunos.
“Primeiro, é o amor. Se não tiveres amor por aquilo que fazes, todas as coisas se tornam mais difíceis”, sublinhou, acrescentando que a experiência profissional e as formações recebidas têm contribuído para melhorar a sua capacidade de intervenção.
Cumprimento da lei e acesso ao emprego
Apesar dos progressos alcançados na sua vida pessoal e profissional, João Caiumba reconhece que muitas pessoas com deficiência continuam a enfrentar obstáculos no acesso ao emprego, aos transportes, às infra-estruturas e aos serviços públicos.
Na sua avaliação, as dificuldades não decorrem apenas das limitações físicas dos espaços, mas também de atitudes discrimi- natórias e do desconhecimento das capacidades e dos direitos das pessoas com deficiência.
O professor reconhece a existência de legislação destinada a promover a acessibilidade e a igualdade de oportunidades, mas considera que a sua aplicação deve ser acompanhada de mecanismos eficazes de fiscalização, para evitar que os direitos reconhecidos permaneçam apenas no papel.“Eu pediria o cumprimento rigoroso daquilo que está escrito. A Lei da Acessibilidade já existe, assim como o direito ao emprego. É preciso fiscalizar a aplicação dessas medidas”, defendeu.
No domínio do recrutamento, defende que os concursos públicos e os programas de empregabilidade devem assegurar condições adequadas de participação às pessoas com deficiência, tendo em conta as competências, a formação e a preparação profissional de cada candidato.
Para o docente, a inclusão não pode depender exclusivamente da sensibilidade dos gestores ou dos empregadores, devendo constituir uma responsabilidade sustentada pelos direitos legalmente reconhecidos.
Acredita que a mudança de mentalidade é igualmente importante para combater os estereótipos que continuam a limitar as oportunidades de participação social e profissional das pessoas com deficiência.
Instrumento de autonomia
Entre as preocupações de João Caiumba está o acesso a cadeiras de rodas e a peças de substituição adequadas às necessidades dos utilizadores. Para o professor, estes equipamentos são indispensáveis para assegurar a mobilidade, a autonomia e a participação nas actividades quotidianas.
“A cadeira de rodas é equivalente ao coração. Não podemos falar de inclusão, de mobilidade, de escola ou de trabalho se não tivermos uma cadeira que nos permita deslocar”, afirmou.
O docente defende a disponibilização de equipamentos de qualidade, adaptados às características físicas de cada utilizador, alertando que uma cadeira inadequada pode provocar dificuldades adicionais e comprometer a autonomia.
Segundo relatou, recebe frequentemente pedidos de ajuda relacionados com a aquisição de eixos, pneus e outros componentes cuja falta impede algumas pessoas de realizar tarefas diárias, frequentar a escola ou exercer uma actividade profissional.
Na sua perspectiva, o Estado e as instituições competentes devem reforçar o apoio à aquisição e manutenção destes equipamentos, de modo a evitar que a falta de uma peça de substituição se transforme num impedimento à participação social.
Desporto adaptado reforça a inclusão
Para além da docência, João Caiumba mantém uma ligação ao desporto adaptado, actividade que lhe permitiu conhecer mais profundamente a realidade das pessoas com deficiência, dentro e fora da província do Namibe.
O envolvimento no associativismo desportivo aproximou-o de outras pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes, reforçando o seu compromisso com a defesa dos direitos e a promoção da inclusão.
Na sua opinião, o desporto constitui um espaço de convivência, valorização pessoal e partilha de experiências, contribuindo para combater o isolamento e o preconceito. Por essa razão, defende o fortalecimento das associações de pessoas com deficiência, por considerar que a organização colectiva permite apresentar reivindicações, partilhar dificuldades e encontrar soluções comuns.
O contacto entre pessoas que vivem realidades semelhantes, acrescentou, pode funcionar como fonte de motivação e demonstrar que as limitações físicas não anulam as capacidades individuais nem as possibilidades de realização pessoal.
Aos jovens com deficiência, aconselha a aposta na formação académica e profissional, na autoestima e na definição de objectivos próprios. Considera igualmente fundamental o papel das famílias, sobretudo durante a infância, por entender que o apoio familiar contribui para o desenvolvimento da confiança e para a integração social.
O professor alerta, contudo, para a necessidade de evitar tanto a superprotecção, que pode limitar a autonomia dos filhos, como o preconceito que leva algumas famílias a esconder ou afastar as crianças com deficiência dos espaços sociais e educativos.
Aos empregadores, deixa um apelo para que não permitam que os estereótipos condicionem as decisões de contratação, lembrando que a deficiência física não determina, por si só, a capacidade de uma pessoa para desempenhar uma profissão.“Uma pessoa com deficiência pode dar o mesmo contributo que qualquer outra”, afirmou.
Para João Caiumba, dar visibilidade a experiências positivas de superação e participação profissional é uma forma de inspirar outras pessoas, sensibilizar as famílias e estimular mudanças de comportamento.
O professor acredita que uma sociedade verdadeiramente inclusiva é aquela que reconhece as capacidades de cada cidadão, assegura condições de acessibilidade e transforma os direitos legalmente consagrados em oportunidades concretas, para que a diferença não seja motivo de exclusão, mas parte da diversidade humana.




