Bengala numa mão. Chapéu noutra. Roupas com marcas de excesso de uso pedem novas mudas. Entre o tronco e o braço esquerdo, uma pasta de processo transparente contendo documentos pessoais.
Entra no banco. Olha para a direita e para a esquerda. O “operativo” orienta para se posicionar na zona de atendimento prioritário. No balcão, formulários, perguntas, procedimentos e explicações surgem em português. Pela ansiedade, é escusado perguntar o que o mais velho foi fazer àquela agência bancária. Porque os documentos e as notas de dois mil Kwanzas no bolso do casaco são como “meias palavras para um bom entendedor”.
O mais velho fala Kimbundo. A língua materna é o único problema que impede a interacção rápida entre o novo cliente e o caixa.
É precisamente nesta fase que o intérprete Vitorino Matias, falante de algumas línguas nacionais, rompe a barreira linguística para aproximar o cidadão aos serviços. Vitorino Matias, falante de Kimbundo, Kicongo, Lingala e Umbundo, acompanha o senhor. Ele o faz voluntariamente por ser responsável de uma associação de camponeses. “Infelizmente é assim. O problema do domínio das nossas línguas pelos funcionários cria barreiras e afasta a população rural dos serviços. Quando isso for superado, o dinheiro guardado nos panos, cabaças e debaixo dos colchões virá para a banca”, declara, num tom irónico.
A intervenção resolveu o problema daquele camponês que preferiu apenas agradecer ao intérprete a dar entrevista à nossa reportagem. “Nga sakidila”, agradeceu antes de partir. A situação relatada revela as dificuldades que alguns cidadãos do meio rural enfrentam para aceder aos serviços públicos e outros devido a barreiras linguísticas. Habituado a trabalhar no meio rural, Vitorino Matias relata que intervém para ajudar cidadãos das zonas recônditas a ter acesso às instituições onde o português domina, em detrimento das línguas nacionais.
“Já interpretei muita gente que procura os diferentes serviços e não sabia falar o português. Nem imagina o alívio que aquilo causa para o utente. A comunicação salva vidas”, resume José Morais.
No meio rural, essa proximidade pode favorecer projectos agrícolas durante a mobilização das comunidades, formação, transmissão de técnicas e negociação.
Data da ONU para aproximar povos
O Dia Internacional da Tradução, assinalado a 30 de Setembro, foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas através da Resolução 71/288, adoptada a 24 de Maio de 2017.
A resolução reconhece o papel da tradução profissional na aproximação entre nações e na promoção do diálogo, compreensão, cooperação, desenvolvimento e paz.
O secretário-geral da ATIA, Augusto José Manuel Bonifácio, lembra que tradução e interpretação sustentam também o multilinguismo nas Nações Unidas, onde são utilizadas seis línguas oficiais: árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo.
A escolha de 30 de Setembro coincide com o dia dedicado a São Jerónimo, tradutor da Bíblia e considerado patrono dos tradutores.
Para Augusto Bonifácio, a efeméride ultrapassa a celebração profissional e reconhece tradutores e intérpretes como pontes entre povos, culturas, instituições e grupos vulneráveis ou com necessidades especiais.
Romper fronteiras geográficas e culturais
Uma frase pode atravessar fronteiras geográficas e culturais através de várias línguas. Esta travessia pode conservar ou alterar o sentido original, dependendo da interpretação de quem descodifica a mensagem. Para Lupena de Almeida, o exercício de tradução e de interpretação começa pela compreensão daquilo que alguém pretende dizer e segue pela procura da melhor forma de transmitir o mesmo sentido noutra língua.
Formado em Antropologia Cultural e Social e com formação em linguística, Lupene, que em português significa Rubem, fala quatro línguas. Ele é fluente em português, Tchokwe, Songo e Umbundu. Compreende o elementar de elementos de Kikongo, Fiote e outras línguas nacionais que lhe permite lidar com várias comunidades.
Aprendeu estas línguas por caminhos diferentes. Tchokwe é língua materna, o Songo veio da família paterna e o Umbundu da convivência quando trabalhou no sul de Angola. A formação em antropologia aproximou-o de outras comunidades e ampliou-lhe o universo linguístico.
Mas foi a formação em técnica de tradução e interpretação que o catapultou para ser um intermediário na comunicação entre falantes de línguas diferentes. Para ele, ser poliglota “não é suficiente para ser intérprete”. “Nem sempre”, responde quando questionado se falar várias línguas transforma automaticamente alguém num bom tradutor.
O desafio da tradução na era tecnológica
O desafio aumenta quando a tecnologia evolui e, com ela, novos conceitos. Rubem de Almeida cita um exemplo de duas palavras presentes diariamente no universo informático, software e hardware. “Estas duas palavras, por exemplo, não existem nas línguas nacionais. Eu vou ter dificuldades para falar a essa população nativa”, admite o desafio.
Durante a conversa, procura uma solução em Tchokwe. Para hardware, ensaia uma expressão associada a equipamentos ou ferramentas metálicas. O exercício mostra o tradutor a construir uma equivalência em tempo real. A aproximação, descrição e associação a imagens conhecidas pela comunidade dá significado.
“Não é fácil. Por isso, para estes casos, o recurso é Chicungo ca haze (equipamentos exterior para Hardware) e Chicungo ca mukaci (equipamentos interior para Software)”, resume.
O padre da Arquidiocese de Luanda, Mário Pacheco, intérprete da mensagem do Papa para a comunidade católica em Angola, refere que o maior desafio é encontrar, em poucos segundos, a palavra exacta para transmitir correctamente uma ideia, sobretudo quando se trata de uma mensagem complexa ou de grande importância.
“O intérprete deve escutar, compreender e transmitir quase simulta- neamente. Ademais, não se traduz apenas palavras; traduz-se pensamentos, contextos, sensibilidade e culturas”, afirma.
Domínio de duas línguas e formação técnica como vantagem
A fidelidade à mensagem preocupa também outros profissionais. O secretário-geral da Associação dos Tradutores e Intérpretes de Angola (ATIA), Augusto Bonifácio, considera o domínio uma vantagem.
“Não basta dominar a língua. Deve-se ter as ferramentas que permitem fazer o trabalho de tradução”, afirma. A especialização dos tradutores nas áreas como medicina, direito, economia, petróleo e seguros é um desafio.
Hélio Pedro é tradutor e intérprete de inglês e português. “A tradução vai muito além de simplesmente converter palavras de uma língua para outra. Envolve converter um sentido, um contexto e a intenção de quem fala”, sustenta.
Nas relações empresariais, acrescenta, a precisão influencia directamente as decisões. “Qualquer falha na comunicação, qualquer má interpretação da mensagem afecta a tomada de decisão.”
O líder da ATIA, que congrega mais de 200 tradutores e intérpretes na sua base de dados, promove capacitações e avalia a competência linguística e a formação para atribuição da cédula profissional.
A organização desenvolveu acções de formação em parceria com a Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto, incluindo iniciativas com formadores de Universidades estrangeiras.
Hélio Pedro integra também uma iniciativa de mentoria que, segundo o profissional, já capacitou mais de 800 tradutores e intérpretes.
Rubem acrescenta o reconhecimento profissional entre os desafios. “Acredito que o tradutor e intérprete ainda não é valorizado, no nosso país”, afirma.
Para o antropólogo Rubem de Almeida, melhores condições profissionais favorecem a circulação da produção intelectual e da riqueza cultural entre diferentes comunidades. “Há muita riqueza cultural universal que precisa ser conhecida por outros povos”, sustenta.
Corruptelas linguísticas
O contacto entre línguas também produz transformações que atravessam gerações. Os casos de nomes de produtos e a toponímia são exemplos vivos desta realidade.
Um deles é massambala. O poliglota confirma que massa é a designação do produto, na língua de origem Tchokwe, enquanto “Masa a Mbala” transmite a ideia de que aquele produto era alheio. A expressão terá sido entendida pelo português como a denominação daquela cultura e consolidada na forma massambala. Entre os Nyaneka, acrescenta, encontra-se o termo típico massango, que designa de forma original o nome do produto.
“Ele escreveu em função daquilo que ouviu, mas o verdadeiro sentido ali e o conceito sofreram uma corruptela”, explica.
Cita igualmente o nome das duas províncias, Moxico. Muxico é um cesto utilizado para transportar objectos. Os exemplos reforçam, segundo o antropólogo, a importância de regressar às comunidades e às línguas de origem para compreender o significado anterior à grafia actualmente utilizada.
Representação da identidade
Vitorino João Matias, professor, cientista político, mestrando em Línguas Angolanas e intérprete desde 2011, leva a discussão para a identidade e para as políticas públicas.
Fala Kikongo, Kimbundu, Lingala, inglês e português. O Kikongo chegou através da família materna. O Lingala e o Umbundu vieram do convívio com amigos. O Kimbundu ganhou espaço na igreja e o inglês juntou convivência e formação profissional.
“A grande vantagem é que você tem acesso a várias literacias e várias culturas e consegue se enquadrar com muita facilidade em qualquer meio”, afirma.
Vitorino interpreta sobretudo inglês e português, além de trabalhar com línguas nacionais em ambientes religiosos. Traduziu também do catalão para português o Manual de Guia do Associativismo Juvenil, ligado ao Conselho Nacional da Juventude.
Para o intérprete, a preservação das línguas nacionais passa pela transmissão entre gerações, ensino e utilização nos serviços.
Evangelho na própria língua
O campo religioso oferece exemplos concretos da tradução para línguas nacionais. A Igreja Evangélica dos Irmãos em Angola (IEIA) está a traduzir o livro dos Salmos para Tchokwe, em estilo poético, através do projecto “Salmos que Cantam”, desenvolvido em Saurimo, Lunda-Sul.
O secretário-geral da IEIA, pastor Isaías Chicola, explica que, em breve, o trabalho vai abranger as línguas Songo e Nganguela. A Igreja prepara ainda negociações com a Sociedade Bíblica de Angola para a revisão da Bíblia em Tchokwe.
“Actualmente estamos a traduzir o livro dos Salmos em Tchokwe, no estilo poético, ‘Salmos que Cantam’, na cidade de Saurimo. Depois faremos o mesmo com a língua Songo e Nganguela”, afirma.
A IEIA já participou na tradução da Bíblia para Tchokwe e do Novo Testamento para Songo e Umbangala, em parceria com a Sociedade Bíblica de Angola.
O trabalho chega também às canções religiosas. A Igreja possui o hinário “Luz de Amor”, com cânticos em português e Tchokwe traduzidos por um núcleo baseado em Saurimo, e o “Sandeki Esivayo”, uma colecção de hinos em Umbundu que inclui cânticos traduzidos do português. “Cada povo deve ouvir a Palavra de Deus na sua própria língua”, resume Chicola.
A Sociedade Bíblica de Angola, uma instituição sem fins lucrativos, mantém actualmente nove projectos de tradução da Bíblia para línguas nacionais, num processo que, além da evangelização, contribui para estudar, escrever e padronizar idiomas com reduzida produção científica.
Benevides Abraão, assistente da área de Publicações e coordenador da tradução da Bíblia para Umbundu, sua língua materna, explica que alguns projectos partem praticamente do início. O trabalho exige estudar a língua e o contexto social, identificar interferências de outros idiomas, definir alfabetos e envolver linguistas e especialistas. “Uma coisa é falar, outra coisa é escrever”, resume.
As traduções bíblicas partem do hebraico, aramaico e grego, com materiais técnicos noutras línguas e recurso ao português como ponte em determinadas etapas. A gestora de Projectos e Programas da Sociedade Bíblica, Paula Cristina Pinto Brito, defende a alfabetização dos cidadãos das comunidades nas próprias línguas. Justifica que, em algumas comunidades, crianças chegam à escola habituadas sobretudo à língua materna e enfrentam dificuldades quando o conhecimento é transmitido exclusivamente em português.
“Ela vai ouvir na língua que entende, na língua que valoriza”, afirma. Para a Sociedade Bíblica, traduzir as Escrituras transforma-se, assim, também num processo de investigação linguística, preservação cultural, alfabetização e valorização das línguas nacionais.
Igreja Católica referencia São Jerónio
A procura pela fidelidade à mensagem atravessa séculos. O padre Mário Fela Pacheco, da Arquidiocese de Luanda, referencia São Jerónimo, tradutor das Escrituras e patrono do exercício da profissão, transportar o sentido de uma língua e cultura para outra.
Poliglota, intérprete e tradutor há cerca de três anos, o vigário cooperador da Paróquia de São Joaquim, na Praia do Bispo, trabalha com português, italiano, inglês, espanhol e francês.
“O intérprete deve escutar, compreender e transmitir quase simultaneamente. Ademais, não se traduz apenas palavras; traduzem-se pensamentos, contextos, sensibilidades e culturas.”
Docente no Seminário Arquiepiscopal de Luanda e na Universidade Católica de Angola, Mário Pacheco considera o estudo, o domínio das línguas e a humildade essenciais ao exercício.
Falar com as mãos e ouvir com olhos
Uma senhora chega a passo de noiva, devagar. Traje simples. Aparência humilde. No portão do hospital de referências de Luanda, um dos guardas tenta impedi-la de entrar, mas passa às pressas depois de gesticular e voltar a agarrar as mãos nas orelhas.
Do portão, passando pela recepção ao consultório de otorrinolaringologia, a senhora enfrenta uma barreira para explicar a dor insuportável que sentia. As mãos eram a sua voz. Os gestos, as suas palavras. As perguntas constantes do corpo clínico mostram incompreensão, por falta de um interlocutor.
José Morais, que acompanha a senhora, conhece aqueles gestos. O intérprete de Língua Gestual Angolana aproxima-se para traduzir a mensagem da paciente que precisa de atendimento médico.
José Morais está habituado a acompanhar pessoas surdas, membros da associação que dirige a hospitais e outros serviços públicos. Quando entra em cena, perguntas, sintomas e orientações são dissipados. Os gestos das mãos ganham sentido para os profissionais de saúde por meio da interpretação técnica.
A língua gestual dá outra dimensão e sentido à comunicação entre a surda e os técnicos de enfermagem. As palavras dão lugar às mãos, expressões e movimentos capazes de integrar a comunidade ao restante universo da comunicação.
José Francisco Morais, intérprete há mais de cinco anos e secretário-geral da Associação Nacional dos Intérpretes de Língua Gestual Angolana (ANIGA), fala português, inglês e Língua Gestual. Começou a actividade com o ensino da Bíblia a pessoas surdas e passou pela Associação Nacional dos Surdos de Angola, na igreja adventista do 7.º Dia.
Hoje, interpreta conteúdos das tele-aulas da TPA. “O intérprete não é o porta-voz. O intérprete é aquele que facilita o surdo de ser ouvido e compreendido”, explica o responsável da agremiação que integra mais de mil profissionais.
José Morais alerta para terminologias discriminatórias utilizadas na referência às pessoas com deficiência auditiva. A comunidade prefere a designação “surdo” ao invés de “mudo”, pois entendem que todos falam de alguma forma ou outra. “O nosso lema «Mãos que falam e olhos que ouvem» sintetiza essa identidade, esta ideia”.




