Académicos abordam lado positivo da fuga de cérebros

Académico apelou às autoridades do país a encontrarem mecanismos que visam o aumento de oportunidades para travar as tendências relativas à emigração
O reitor da Universidade 11 de Novembro em Cabinda, Kianvu Tamu, defendeu, naquela cidade, que o fenómeno da emigração em África em geral e, em particular, em Angola, sobretudo no seio da juventude, não deve ser visto como um mal no seu todo.
Ao Jornal de Angola, no quadro das celebrações de África, o reitor referiu que, apesar de ser um fenómeno preocupante, olhando para a fuga de quadros e as suas consequências, grande parte das pessoas que emigram pensam em regressar à terra de origem e, nesse processo de volta, trazem consigo várias experiências que, de alguma forma, beneficiam o progresso do país.
“Há um ganho no fim, porque vão voltar ao país com mais conhecimento e experiência”, disse, tendo exemplificado que a moda da venda de hambúrguer (roulottes) que chegou ao país no fim da década de 1990, serviços de entrega de Fast Food, empresas que prestam serviços de limpeza, entre outros, foram criadas, na sua maioria, por pessoas que viveram na Europa.
Para Kianvu Tamu, a fuga de quadros, embora seja um problema observado com maior incidência em África, ocorre em todo o mundo. No entanto, existem médicos portugueses, engenheiros gregos, cozinheiros espanhóis e outros a trabalharem em França, Suíça ou na Inglaterra.
Embora não defenda estritamente a questão da emigração, Kianvu Tamu chama atenção a todos para uma abordagem racional e isenta à volta do fenómeno, de modos a evitar propaganda ou relatos equivocados que tendem a dramatizar a saída dos jovens do país em busca de melhores condições de vida. Todavia, o académico apelou às autoridades do país a encontrarem mecanismos que visam o aumento de oportunidades de emprego para travar as tendências relativas à emigração no seio dos jovens.
“O Governo tem que investir seriamente na formação técnico-profissional, porque esse país vai mudar com cursos técnicos. É o caso da China, Vietname, Coreia e outros, porque nem todos precisam ir para as universidades”, disse. Outrossim, aconselhou os jovens de Cabinda, em particular, a adaptarem-se às suas habilidades profissionais em função do contexto, tendo em conta a diversidade actual que os mercados apresentam, “se arranja computador, aprende também a reparar telefone, se é mecânico, esforça-se também para aprender electricidade”.
Factores da emigração
O professor universitário Alexandre Tébuca aponta as condições sociais, Saúde, Saneamento, Educação, custo de vida, com destaque a dificuldade no emprego, como as principais causas que levam os jovens à emigração.
Segundo Alexandre Tébuca, passa-se a ideia que na Europa existem melhores condições de vida, relativamente à situação social em comparação com África e Angola em particular.
Embora nunca tenha vivido em alguma parte da Europa, o decente argumentou que os relatos que vem recebendo de familiares e amigos que residem fora do país apontam que a situação social dos emigrantes não é das melhores .
Na opinião do professor que lecciona a cadeira de Teoria Geral do Direito Cível na Universidade 11 de Novembro, com a saída de quadros angolanos, o país priva-se do desenvolvimento , criando um défice de profissionais e, como alternativa, acabarão por ser preenchidos por cidadãos estrangeiros.
Alexandre Tébuca apelou, de igual modo, ao Estado que crie políticas de fomento à empregabilidade, assim como linhas de financiamento que facilitem a abertura de pequenos negócios de maneira a motivar os jovens a ficarem e contribuir para o progresso do país e a atrair os que estão fora, de modo que possam regressar. Apesar da situação que o país atravessa, o professor aconselhou os jovens a ficarem no país e contribuirem para o seu desenvolvimento.
“Emigram quem tem condições de o fazer, mas é uma falsa ilusão pensar que lá fora vai encontrar a boa vida, não é verdade, portanto, não aconselho ninguém a emigrar porque nem eu próprio penso nisso”, disse. A estudante de Direito, Andréa Duarte, disse que a emigração é uma atitude normal, na medida em que cada cidadão de qualquer país tem o direito de procurar o que é melhor para vida.
Por outro lado, a estudante avançou que a emigração, no contexto actual, não é a solução, sobretudo porque a Europa também atravessa momento de crises sociais e, face a isso, disse, as políticas, relativamente às oportunidades de emprego desses países, tendem a colocar como prioridade os cidadãos nacionais e não os estrangeiros.
“Se os angolanos deixarem o país, o lugar que seria ocupado por eles como cidadãos nacionais, será ocupado por estrangeiros para preencher o défice e isso não está certo, é um perigo”, afirmou.
Olhar dos sociólogos
O sociólogo João Chico destacou o impacto que a economia do país sofre com a situação actual da fuga de quadros para o exterior.
Para o sociólogo, a força de trabalho, por sere a maioria jovem que cada vez mais deixa o país, acaba por ficar comprometida, provocando declínio naquilo que é a produção e o desenvolvimento económico.
“Como se diz, o jovem é a força motriz de uma sociedade”, reiterou e argumentou que, com a fuga de cérebros à Europa, acaba por ser beneficiada com a força de trabalho que os jovens carregam.
Do ponto de vista político, disse o também professor, a emigração massiva passa a ideia ao mundo de que no país de origem as questões sociais não são adequadas às expectativas dos cidadãos.
“Nesse sentido, a imagem externa do país acaba por ser questionável”, concluiu.
Na visão do sociólogo, a educação é um projecto social que deve servir para o desenvolvimento da comunidade e, segundo disse, alguns desses muitos imigrantes formaram-se às custas do Estado e com a saída, acaba sendo um investimento desperdiçado.
“Quem estuda com o dinheiro do Estado e de seguida abandona o país, todos perdem, porque teremos menos professores, médicos, agrónomos, operários e muito mais”, alertou.
Por outro lado, João Chico alerta que a solução para travar a emigração, passa pelo investimento sério na produção agrícola, pecuária, indústria, tecnologia e o fomento de negócio virado aos cidadãos nacionais.


