Académicos criticam baixo investimento na investigação científica em Angola

O panorama da investigação científica em Angola continua paralisado devido a incapacidade de investimento, falta de boa vontade por parte do Governo, burocracias no financiamento entre outras razões, disseram os académicos que participaram esta terça-feira, 26, do programa Capital Central, da Rádio Correio da Kianda.
O sociólogo Agostinho Paulo questionou quem são os beneficiários das verbas alocadas para a pesquisa e revelou que enfrenta várias dificuldades para aquisição do montante, com vista a realização da pesquisa científica.
Agostinho Paulo falou de burocracias para aquisição de verbas e sustentou a sua afirmação com a existência de “uma fraca política monetária do Estado em relação os investimentos a nível da pesquisa.
“Nós docentes universitários quando solicitamos, há muita burocracia, pensam que vamos comprar carro com o dinheiro, ficamos sem saber quem são os beneficiários”, afirmou.
Agostinho Paulo chamou a atenção ao instituto de pesquisa, com vista a criar políticas de financiamento para cidadãos que se mostrem disponíveis e interessados para a criação de projectos.
“Já se fez o projecto, se criou comissões, se remeteu documentos, foi aprovado o projecto, mas infelizmente a desmantelação das verbas está na âncora da coordenação. Isso é um pecado intelectual”, afirmou.
O sociólogo enquadra a pesquisa científica numa motivação institucional para professores e estudantes, por isso, entende que as universidades devem priorizar nas grelhas curriculares pesquisas em vários domínios.
“É importante que os estudantes do primeiro ao segundo ano saíam às ruas para realizar uma feira de saúde com orientações de especialistas, é importante que os estudantes realizem pesquisas a nível do bairros onde está localizada a universidades para determinar os problemas sociais que apoquentam aquele bairro relacionados a economia, pobreza, fome, fuga a paternidade e outros. O estudante participando de forma directa entenderá que a universidade não é só ter canudo”, realçou.
Baixo investimento
O economista Fábio Manuel, que também fez parte do painel, não teve uma visão diferente do sociólogo. Fábio Manuel enquadrou a sua preocupação em números, realçando que investimento em ciência seria uma oportunidade para Angola, mas que os dados estatísticos contrariam esta abordagem.
O economista assegurou que a taxa investida por Angola na investigação científica contraria as aspirações da União Africana.
“Os números dizem contrariamente, Angola investe cerca de 0,2 por cento do seu PIB à investigação científica, a UA recomenda que os países devem investir pelo menos 1 por cento do seu PIB na investigação científica”, frisou.
Para o académico, todos têm uma responsabilidade a nível da produção da investigação científica.
“A investigação científica em Angola está paralisada devido a incapacidade de investimento por parte das universidades”, defendeu o director do Centro de Investigação Científica da Universidade Lusíada, Fernando dos Santos Figueiredo de Carvalho.
“Não há capacidade de investimento por parte das universidades, todas universidades têm as restrições que conhecemos, tenho dito, o Estado se quer fazer política social tem que meter o valor no OGE e pagar e não é restringir as propinas”, assegurou.
Para o gestor académico, a má qualidade existente no país deve-se aos valores pagos aos professores que muitas vezes não têm sido suficientes para cobrir as suas necessidades e veem-se obrigados a leccionar em várias instituições.
“As universidades pagam pessimamente aos professores, portanto, temos o ensino péssimo que temos, porque os professores ao invés de estar em uma universidade dão aulas em três universidades e saem a correr de uma para outra, e ainda tem emprego fora, isso resulta que nenhum professor esta interessado em fazer investigação cientifica”, sublinhou.
Prosseguiu, dizendo que a investigação científica em Angola está a manifestar-se, mas ainda enfrenta desafios, como a necessidade de fortalecer a formação de investigadores qualificados, infra-estrutura inadequada e o legado da guerra e do colonialismo.
No entanto, o governo tem implementado políticas para desenvolver o sector, como o estabelecimento do Centro Nacional de Investigação Científica (CNIC) e a criação da FUNDECIT para financiar a investigação, com o objectivo de alinhar a ciência ao desenvolvimento sustentável e à resolução de problemas sociais.



